sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Novidades

- Oi Venâncio
- Oi Zé
- Bão?
- Bão
- Marivaldo, me dá uma branquinha dessa igual do Venâncio
- Oh Zé, cê viu que já tá morando gente naquela casa da esquina, sua vizinha?
- Gente não Venâncio, uma baita d´uma muié bunita! Nossa...
- É, eu vi, e é disquitada, num tem marido não
- É?!? Disso num tava sabendo não, mioro hein??
- Ela num tem marido mas ocê tem muié, cuidado!
- Eita, num tô nem pensando em nada, ela tem uns menino
- É, morava em São Paulo, o marido compro essa casa pra ela ficá c´os moleque, acha que é mais tranquilo, cidade mais pacata
- Compro? Eu pensava que era alugada
- Não, compro, o Dirceu lá da padaria que falo
- Uia, então eu vo lá vê se ela não qué uma reforma, qualquer coisa
- Zé...
- Mas eu sou pedrero ué!
- Eu sei, mas cuidado
- Escuta, mas de quem que era aquela casa?
- De uma tal de dona Eugenia que mora lá no centro, viúva de um juiz eu acho
- Agora tá endinherada, será que num precisa de uma reforma na casa que ela mora não?
- Sei lá, eu nem sei onde mora essa tal
- Ô Marivaldo, me vê mais uma branquinha aí que eu tô atrasado
- Atrasado?
- Venâncio ocê nem sabe, se eu chego em casa e a Neuza já tá com o pano de prato no ombro... rapaiz, o bicho pega. Ela qué que eu janto cedo pra ela lava os prato e assisti a novela sossegada, tchau
- Tchau Zé

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Causos

O meu pai contava que, quando ele era menino, lá pelos seus treze, quatorze anos, ia pescar com meu avô, o seu Augusto.
Nem tanto porque gostasse de pescar, mas porque gostava da companhia do pai. Mesmo a pesca sendo uma atividade silenciosa, estar perto é estar perto.
Caminhavam pela fazenda, depois pegavam uma estradinha, que a mim me parece mais um caminho e chegavam ao rio.
Nessa estradinha/caminho havia uma casa, habitada, sempre de janelas e portas abertas, um cachorro aqui, onde nunca se via ninguém. Simples, muito simples, mas arrumadinha.
Sempre passavam por ela.
Um dia, lá iam meu avô, meu pai e um dos irmãos dele para mais um dia de pescaria.
Ao passarem pela casa, viram a mesa coberta com um lençol branco, um silêncio, flores frescas em um bonito vaso no qual nunca tinham reparado.
Estranharam não haver ali ninguém, mas imaginaram que pudessem estar a caminho da cidade, das fazendas vizinhas, a anunciar tal tristeza.
Não entraram, mas parados na porta tiraram os chapéus e fizeram uma oração.
Depois seguiram caminho. Meu tio mais tagarela do que normalmente a dupla avô e pai.
Final do dia, de volta da pescaria, qual não foi a surpresa ao passarem pela mesma porta aberta!
O lençol estava amontoado a um canto da mesa e uma mulher cantarolava experimentando sua nova preciosidade: uma máquina de costura a mão!
Pois é, eles rezaram para uma máquina de costura, uma relíquia, exposta no lugar de maior prestígio da casa: a sala, coberta das impurezas da estrada pelo melhor lençol!
O tagarela riu muito, meu pai o seguiu e juntos desfizeram a carranca que vô Augusto tinha desenhado!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Nem tudo sai no jornal

Era elegante o meu avô Augusto.
Alinhado em seus ternos de linho branco e chapéu impecável. Circulava bem pela vida social da cidade pequena.
Não conheci minha avó Angela, mas dizem os anais da família Nicolino, Nicolini ou Nicoleto, que era mulher discreta.
Na foto que quase se vê, coluna social do jornal, a irônica sombra a protege, ou a persegue?
Avessa a eventos sociais, o que era motivo de discórdia com o sociável Augusto, imagino que tenha chorado recolhida quando ele comentou:
- e que vestidos são esses? sempre de preto, parece que compra tecido de guarda-chuva para fazer as roupas!!!

Certa feita, dona Angela ao cuidar da capa de chuva deixada à noite no hall de entrada da casa, encontrou no bolso um elegante par de luvas.
Quase em silêncio, uma raiva genuína, atirou o par de luvas no fogão à lenha onde já preparavam o café e as viu serem consumidas lentamente.
Um pouco mais tarde, o filho de número 6, Nelson, indaga:

- mãe, viu umas luvas que deixei na capa de chuva do papai que usei ontem à noite?

Em tempo, o filho de número 3 - Luiz, que aparece na foto, é o meu pai.
Olhar azul e firme em um futuro que já veio e que já foi.