O mínimo que podia fazer era ficar quieto e esperar a poeira baixar.
Sacou o caderninho do bolso e anotou: procurar a origem da expressão "esperar a poeira baixar".
Ficou quieto na cadeira e só a arrastava de leve para seguir o raio de sol.
Lá dentro alguns andavam de um lado para outro.
Se isso não resolve, porque tumultuar?
Outros ficavam sentados, mas perguntando como foi, com os olhos espantados, a boca aberta e a mão tentando esconder os dentes mal arranjados.
Quando a poeira baixasse ele talvez diria o que sabia.
Ainda não decidira se espontaneamente ou apenas se fosse chamado a uma sala e interrogado.
O fato era que não tinha nenhuma participação, a não ser saber mais ou menos o que se passara justamente por conta de sua discrição.
Anotou de novo no caderninho: verificar se em latim é o descriptione ou discretione... mas no fundo sabia que era o segundo, escrever no bloquinho era um prazer irresistível e por isso sempre arrumava alguma coisa para anotar.
Estava nisso quando a Diretora Eleonora sentou-se a seu lado e entre amorosa e severa afirmou:
- Seu Luigi, sabemos que sabe algo, pode nos contar? É para o bem dele.
Sem pestanejar ou planejar respondeu:
- De fato! O Agnelo conheceu uma senhora muito distinta pela internet e fugiu para morar com ela, mas não sei mais nada, como se chama, onde mora, ele só me disse que ainda tem setenta e nove anos, é capitalizado e que ninguém pode obrigá-lo a ficar aqui. E eu concordo. Ele tem saúde e juízo.
- Obrigada, vou falar com o filho dele, mas eu sabia que essa história de acesso a internet ainda ia me arrumar confusão!
Ele balançou a cabeça e anotou no bloquinho: aprofundar conhecimento sobre a internet.
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quinta-feira, 11 de agosto de 2011
sexta-feira, 29 de maio de 2009
Sutilmente
Carregava sempre consigo o bloco de anotações.
E anotava sutilezas.
O pedaço de uma música. Um pensamento que lhe ocorria.
O telefone de uma plaquinha indicando costureira.
O itinerário de um ônibus que talvez um dia pudesse precisar.
Números ao acaso para talvez um dia jogar na loteria.
Carregava sempre consigo uma caneta bic, azul, com a tampa impecavelmente lustrosa, sem nenhum sinal de dentada inquieta.
E com ela escrevia o pensamento do dia lido em um jornal popular qualquer.
Anotava o significado do nome. Às vezes o signo no horóscopo chinês.
Mas naquele dia teve que anotar a placa do carro que depois do barulho demorou um pouco para manobrar e sair de novo em alta velocidade.
A mão tremia. A caneta queria falhar.
As pessoas gritavam ordenando umas às outras que ajudassem, que acudissem, que telefonassem, mas ninguém se mexia.
Só a mão trêmula desenhava letras e números repetidamente mencionados para não esquecer.
E marca, e cor.
Nada mais se mexia.
Nunca imaginou que o bloco de anotações também serviria para isso.
Arrancou a página e entregou ao policial.
Na página que sobrou ainda se podia ler todos os dados, tão forte pressionou letras e números.
Passou a mão devagar. Alto relevo, baixa compreensão dos caminhos da vida e vice-versa.
Fez sinal para o Vila Mariana. Embarcou. Encontrou um banco no fundo.
Passou a mão devagar na folha em branco mais uma vez. Escreveu um trecho do Pai Nosso que mais que isso não sabia e guardou o bloco e a caneta no bolso, sutilmente.
E anotava sutilezas.
O pedaço de uma música. Um pensamento que lhe ocorria.
O telefone de uma plaquinha indicando costureira.
O itinerário de um ônibus que talvez um dia pudesse precisar.
Números ao acaso para talvez um dia jogar na loteria.
Carregava sempre consigo uma caneta bic, azul, com a tampa impecavelmente lustrosa, sem nenhum sinal de dentada inquieta.
E com ela escrevia o pensamento do dia lido em um jornal popular qualquer.
Anotava o significado do nome. Às vezes o signo no horóscopo chinês.
Mas naquele dia teve que anotar a placa do carro que depois do barulho demorou um pouco para manobrar e sair de novo em alta velocidade.
A mão tremia. A caneta queria falhar.
As pessoas gritavam ordenando umas às outras que ajudassem, que acudissem, que telefonassem, mas ninguém se mexia.
Só a mão trêmula desenhava letras e números repetidamente mencionados para não esquecer.
E marca, e cor.
Nada mais se mexia.
Nunca imaginou que o bloco de anotações também serviria para isso.
Arrancou a página e entregou ao policial.
Na página que sobrou ainda se podia ler todos os dados, tão forte pressionou letras e números.
Passou a mão devagar. Alto relevo, baixa compreensão dos caminhos da vida e vice-versa.
Fez sinal para o Vila Mariana. Embarcou. Encontrou um banco no fundo.
Passou a mão devagar na folha em branco mais uma vez. Escreveu um trecho do Pai Nosso que mais que isso não sabia e guardou o bloco e a caneta no bolso, sutilmente.
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