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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Ouvi dizer

Ouvi histórias do Japão que narram que os velhos são destacados para ensinar os jovens.
Informalmente, se é que eles entendem esse conceito, já que minha percepção pré conceituosa me faz vê-los sempre tão formais.
Em círculos contam histórias do passado, de quando eram crianças, de como eram as plantações, de como era a comida e o trabalho.
História de vida, nada de histórias documentadas.
Sem pompa, mas na circunstância ideal.
E ouvindo essas histórias fiquei pensando nas minhas e para quem, além das minhas pequenas, eu poderei contá-las.
Em escolas públicas, em bibliotecas, em creches, em restaurantes onde há um espacinho para a criançada, em livrarias, preciso pensar, mas preciso contar que fiz curso de datilografia e o que isso é, ou foi.
Que um dos objetos de desejo que comprei foi uma máquina portátil de escrever e que o up grade seria uma máquina elétrica e que isso nunca chegou a acontecer.
Que quando fui morar em Recife falava com meu pai pelo telex, e o que isso é ou foi.
Que o fax foi um espanto.
Que tive telefones fixos alugados quando me mudei para São Paulo porque as linhas eram caras e havia longa espera para a compra de uma delas. E no interior ter telefone dava status!
Que usei mimeógrafo.
Que usei transparências. Não nas roupas, nas apresentações.
Papel carbono.
Com papel carbono eu podia escrever uma poesia já duplicada.
Rasgada e amassada perdida para sempre, arquivo irrecuperável.
A quem minhas histórias hão de interessar?

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Poesia Velha

Vasculho papéis velhos atrás de uma poesia bonita que talvez eu tenha escrito em um momento inspirado.
Encontro duas respostas: ou nunca escrevi uma poesia bonita ou estou muito exigente e meu senso de hoje me faz mais crítica do que eu deveria ser.
Não encontro as rimas.
Não encontro as palavras finas.
Não encontro as dores de agora naquelas dores que tanto me fizeram chorar.
Ou eu era muito boba ou agora sou muito cética para entender tudo aquilo que marcou os papéis.
Tive uma máquina de datilografar. Por que não a conservei?
Medo do ataque das teclas ensandecidas e esquecidas.
Uma máquina nos enfrenta porque depois que nos entregamos aos seus registros, o que resta é rasgar o papel. Não se apaga como agora.
Teclas duras que exigem esforço e rapidez.
Mãos endurecidas.
Vasculho inutilmente papéis velhos.
No futuro hei de vasculhar arquivos.
Tão frágeis e apagáveis.
Apagáveis? Se não está segura uma tecla de busca.
O dicionário me olha inconformado.
Sou um bicho estranho abrindo esse livro pesado. Olham-me de rabo de olho.
De onde saiu essa?
Dias apagados.
Dias de chuva no final da primavera.
O verão espera lânguido a sua hora, enquanto eu vasculho os papéis.
Se encontrar, talvez tenha pudor de revelar.