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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Boi

um boi na beira da estrada é sempre um boi na beira da estrada
a quem não se pode dizer nada e de quem não se vai ouvir nada
concordo que dele nada ouviremos
mas podemos dizer, sim, claro que podemos
o boi não sabe que vai ser natal
não é natal para os judeus
e o mundo não vai acabar no dia 31 de dezembro
mas parece que sim para algumas pessoas
elas parecem alucinadas, no trânsito, nas calçadas, nos shoppings
o boi da beira da estrada não sabe disso
e, portanto, ele é bem feliz
ele não sabe nem mesmo para quê está ali e também não faz diferença
enquanto ele está ali ele come a grama que está bem embaixo do seu nariz
e se uma fila de bois passa por ele
ele entra na fila e também caminha sem perguntar para onde ou para quê
um boi na beira da estrada é sempre um boi na beira da estrada
ele não sabe de que cor, ano, marca é o meu carro
me olha e me vê
mas não se impressiona, tampouco tenta me impressionar
ele apenas me olha
e eu posso explicar a ele que todo mundo está alucinado porque
vai ser natal
que é rico e glamouroso para alguns
que é pobre e triste para outros e, na verdade, para ele não faz a menor diferença
quero ser amiga do boi e nada mais

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Carona

Sol de tarde de inverno, quase aquece e quase ofusca a visão quando nos encara de frente na estrada.
Caminho modorrento.
Sem razão.
Caminho tranquilo e de velocidade cada vez mais reduzida pelas obras.
Obras sem arte, obras de descarte, sucessivas, invasivas.
O rádio ligado não me deixa pensar.
O caminhão do lado anda mais apressado sem carga, sem carroceria, só o cavalo pronto pra relinchar.
Buzina e quase me assusta, pra que buzinar? Estamos a trinta, quarenta quilômetros por hora.
E então percebo um caronista.
Um vôo leve denuncia sua presença.
Pousa quase na minha frente. Uma joaninha amarela.
Entre o universo do meu carro e a possibilidade de universo que vejo lá fora fico com essa segunda opção para orientar o futuro dela e abro a janela.
Nunca ando de janela aberta, mas tenho que permitir que ela ganhe o mundo.
Mas para minha surpresa ela pousa na janela ao meu lado e mais firme do que nunca se recusa a voar.
Como um cachorrinho que acaba de descobrir o prazer do vento na cara, ela parece acompanhar a paisagem.
Espio de rabo de olho esperando que se vá, esperando que a velocidade volte ao normal.
Nada. Nem uma coisa nem outra.
Penso que talvez tanto vento atrapalhe, subo um pouco o vidro.
Nada. Ela segue olhando a paisagem em seu posto de caronista privilegiada.
As sinalizações de obra vão ficando pra trás, o ritmo vai aumentando, fecho de vez a janela e sigo meu caminho.
Em casa, do carro para o dedo, do dedo para o jardim.
Uma joaninha amarela. Talvez um anjo da guarda. Talvez uma fada mirim.
Além das pessoas não tenho nada de muito precioso, mas sinto a vida que vive perto de mim.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Estrada

E então acordei pensando que quando vamos construindo nossa estrada temos que ser muito cuidadosos.
Não ignorar detalhes.
Não ignorar sinais.
Fiquei pensando que se a construímos bem, sem buracos ou encruzilhadas podemos voltar por ela, em algum momento.
Sim, é preciso deixar atrás de si um caminho sólido, que nos ajude a voltar um pouco para depois seguir adiante ainda mais confiante.
E então vou dormir contente, porque parece que fiz uma estrada assim.