Mostrando postagens com marcador feijão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador feijão. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 25 de março de 2015

Remoção

Cresceu descalço e de calção. Comendo feijão com farinha, de tarde um pedaço de pão com margarina em casa ou na vizinha. De domingo um naco de carne. De vez em quando uma coca-cola comprada com moeda juntada.
A mãe sempre estressada de faxina em faxina no Morumbi.
O pai às vezes por três meses sem aparecer em casa, dormindo na obra em outra cidade.
A irmã caçula sempre na barra da saia da avó.
A escola um saco, merenda mais ou menos e professores desinteressados.
Mas cresceu. Com um tênis e outro, uma calça comprada no Brás.
O maior bem um carro de décima mão, para ajudar a chegar onde quer que alguém precise de serviços gerais.
Mas hoje, o carro pegou fogo na pista local da marginal.
Quando o guarda da CET chegou:
- E aí companheiro? Vai fazer o quê?
- Não sei não, meu celular nem tem crédito pra avisar a dona que eu não vou chegar no serviço.
- Não pode ficar aqui não
- Mas eu tô cansado seu guarda, vou ficar aqui até a vida me remover!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Feijão

- A Margarida não pode ir à feira porque está cozinhando feijão e tem medo de deixar fogo aceso com panela cheia no fogão. E ela tá certa. Lembra da Claudete? Tava cozinhando lata de leite condensado na panela de pressão e explodiu tudo. Quebrou vidro, machucou a mão dela muito!
- Ah, mas aí é que tá, se ela não estivesse lá que se explodisse sozinho, sem machucar a mão
- Ai Doralice, mas você sempre põe uma pitada de chatice na sua conversa, né? Você nunca pode concordar com ninguém, sempre quer ter a última palavra, é de admirar você!
- Eu não, só acho isso, você falou uma coisa que não combina e eu quis falar.
- Você não quer ir à feira pra Margarida?
- Eu não, ela é muita pão duro! Uma vez eu fui e não encontrei as coisas do jeito dela ela ficou reclamando, vou não!
- Eu também não posso ir porque ainda tô com o pé inchado
- Por que é que a Margarida começou a cozinhar o feijão tão cedo? Não podia ter ido à feira antes?
- Eu acho que ela ainda não tá recuperada
- Dessas coisas a gente não recupera nunca Salete
- É triste né?
- É, eu acho que enquanto o feijão fica chiando na panela ela fica lembrando dele
- Será?
- Ele gostava de feijão, gostava de quando abria a panela comer quentinho com pão, sabe assim, tirar o miolo e encher de feijão?
- Eu também gosto
- Ai Doralice, mas eu falando de uma coisa tão triste e você logo se pondo no meio do assunto, você é terrível!
- Eu não... é só que eu também gosto de pão com feijão e não é muita gente que gosta e agora é menos ainda...
- Ele era bonito
- Era
- E era bom moço
- Era mesmo
- Uma mãe, um pai nunca devia ficar enquanto um filho vai
- Isso é
- Vamos nós duas na feira? Eu escolho as coisas, você carrega a sacola junto pra não pesar e doer meu pé
- Vamos
- Ô Margarida, dá aqui a lista da feira que Doralice mais eu tamo indo
- Margarida?