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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O menino da feira

Gostava de sentar e olhar o tempo perdido em seus pensamentos, desde menino.
Naquela época rabiscava o chão com um graveto qualquer, agora brinca com as correntes de ouro penduradas no mesmo pescoço branco, só crescido.
Nunca tivera sorte na vida. Era um moleque magrelo, canela fina e apesar de sempre ter comida na mesa, o bife era pequeno e de vez em quando e, fruta, só as mangas do quintal.
Nada daquelas maçãs de conto de fadas que via na feira, ou os morangos das caixas que às vezes carregava na mão, como preciosidade.
Jogava bola com o Tadeu, mas nunca tiveram uma bola nova igual a do Rodrigo, que jogava sozinho, feito bobo dentro do quintal.
E bicicleta então, ah que vontade de ter uma novinha, cheirando a plástico da fábrica, a óleo igual de carro.
Bicicleta até o Tadeu tinha e até o deixava andar, mas era comprada de segunda mão e já tinha sido do irmão do Tadeu, vê lá se isso dá algum gosto?
Agora, de vez em quando conta as correntes e pensa em comprar mais uma, bem grossa, e aí usar só ela.
Ia à escola, mas tinha tanto sono que tudo embaralhava. Ser pobre não é defeito, dizia sua mãe. Mas ela nem tinha estudado, não sabia nada da vida, escutava essas coisas na igreja e repetia. Talvez pra doer menos. Era inocente sua mãe.
- hei menino, tá no mundo da lua, é? quanto cobra pra levar meu carrinho de feira até em casa? Moro depois da linha, deve dar uns cinco quarteirões...
Demorou pra responder, despertado de sua decisão, mas a resposta foi firme, como se preparada em banho maria como o pudim de muito de vez em quando.
- hoje não vou cobrar nada não, também moro lá praqueles lados e não vou mais trabalhar aqui de levar carrinho de feira, mas bem gostava se a senhora me desse um moranguinho desses...
Eduardo, é assim que as pessoas pensam que ele se chama.

  

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Feijão

- A Margarida não pode ir à feira porque está cozinhando feijão e tem medo de deixar fogo aceso com panela cheia no fogão. E ela tá certa. Lembra da Claudete? Tava cozinhando lata de leite condensado na panela de pressão e explodiu tudo. Quebrou vidro, machucou a mão dela muito!
- Ah, mas aí é que tá, se ela não estivesse lá que se explodisse sozinho, sem machucar a mão
- Ai Doralice, mas você sempre põe uma pitada de chatice na sua conversa, né? Você nunca pode concordar com ninguém, sempre quer ter a última palavra, é de admirar você!
- Eu não, só acho isso, você falou uma coisa que não combina e eu quis falar.
- Você não quer ir à feira pra Margarida?
- Eu não, ela é muita pão duro! Uma vez eu fui e não encontrei as coisas do jeito dela ela ficou reclamando, vou não!
- Eu também não posso ir porque ainda tô com o pé inchado
- Por que é que a Margarida começou a cozinhar o feijão tão cedo? Não podia ter ido à feira antes?
- Eu acho que ela ainda não tá recuperada
- Dessas coisas a gente não recupera nunca Salete
- É triste né?
- É, eu acho que enquanto o feijão fica chiando na panela ela fica lembrando dele
- Será?
- Ele gostava de feijão, gostava de quando abria a panela comer quentinho com pão, sabe assim, tirar o miolo e encher de feijão?
- Eu também gosto
- Ai Doralice, mas eu falando de uma coisa tão triste e você logo se pondo no meio do assunto, você é terrível!
- Eu não... é só que eu também gosto de pão com feijão e não é muita gente que gosta e agora é menos ainda...
- Ele era bonito
- Era
- E era bom moço
- Era mesmo
- Uma mãe, um pai nunca devia ficar enquanto um filho vai
- Isso é
- Vamos nós duas na feira? Eu escolho as coisas, você carrega a sacola junto pra não pesar e doer meu pé
- Vamos
- Ô Margarida, dá aqui a lista da feira que Doralice mais eu tamo indo
- Margarida?