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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Vale um like, não vale?

Sou do tempo em que se esperava nove meses para saber o sexo do bebê.
Isso porque muitas vezes eram três ou quatro para confirmar que estavam mesmos grávidas as mulheres.
E, por isso, muitas vezes os nomes só eram escolhidos após o nascimento do pimpolho.
Hoje em poucas semanas se sabe tudo. Se é menino, menina, que cor de quarto vai ter, que quantidade absurda de roupas compradas em Miami para todas as estações praticamente até os dois primeiros anos.
E Miami não vai sair do lugar, até onde sei das previsões de alterações naturais.

Sou do tempo em que esperávamos uma ligação e se não estivéssemos em casa a esperança era de que o pai não atendesse o telefone, caso fosse um namoradinho novo.
Os telefones tinham disco, gancho, local de destaque na casa e bloquinho e caneta para os recados.
Era uma unidade familiar.
Bem depois as secretárias eletrônicas foram uma revolução, uma inovação!
E hoje, os telefones são unitários, cada um tem o seu e ele até faz chamadas, mas o que mais importa é que ele faz muitas outras coisas, uma lista enorme, que nem vale a pena mencionar.

Sou do tempo em que se esperava receber cartas com notícias da família. Cartões postais dos viajantes.
Não se esperava receber um telegrama, na maioria das vezes eles traziam más notícias.
Hoje o correio eletrônico circula poderoso e no fundo assustado com os programinhas de comunicação instantânea, as redes sociais e que tais.

Sou do tempo em que esperávamos muito para ver as fotos feitas em um passeio ou um momento especial.
Esperar o filme acabar e parecia uma eternidade... 12 fotos, 24 fotos. Depois levar para revelar, esperar alguns dias e finalmente desfrutar o prazer de ver as imagens. Nem todas boas... diga-se de passagem.
Hoje é tudo digital e instantâneo e as fotos ficam melhores e as muito ruins são deletadas.

É, sou do tempo em que deletar não era um verbo, por isso não deleto minhas memórias, eu as armazeno de um outro jeito e compartilho e por isso vale um like, não vale?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Gavetas

Não tinha nada para fazer naquele sábado chuvoso, por isso resolveu arrumar gavetas.
As mais fáceis primeiro, as de meias, camisetas.
Depois as de documentos, contratos e contas. Bem mais trabalhosas, muito papel inútil, muita continha paga pro lixo.
Fez uma pausa e preparou um café.
A cozinha pequena, em ordem, tão pronta pra receber alguém. Quem?
Um café tão gostoso. Bem gostava de dividir com alguém e conversar sobre qualquer coisa.
Ia desistir de continuar arrumando gavetas.
Mas se deu conta de que todas as anteriores tinham sido arrumadas primeiro para postergar a vez daquela em que não queria mexer.
A gaveta das cartas e das fotografias.
Pensava separar umas de outras e depois ordenar as cartas por data. Talvez por remetentes? Não deveriam ser tantos assim.
E por último as fotografias.
Nada pode misturar de forma mais homogênea as lembranças boas e as doloridas do que um par de fotografias.
Rir das roupas e dos cortes de cabelo.
Buscar no olhar a presença da alma.
Apertar no peito um pedaço de papel e chorar sem pressa uma coisa que uns chamam de saudade, outros de dor, outros de ausência, mas que ela não sabia do que chamar.
Só sabia que tinha chegado a hora, tantas vezes adiada, de arrumar a gaveta de fotografias.