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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Besta

É assim, desse jeito meio caipira que minha Cláudia me “repreende” quando falo alguma bobagem. E quase sempre eu falo.
Minha amiga é dessas pessoas que existem e são queridas sem esforço nenhum. Existência leve, ainda que nunca se sabe o quanto pesa a trouxinha que se vai fazendo ao longo da vida.
Eu me lembro da primeira vez em que a vi.
No almoço de aniversário de Jorge, um amigo de trabalho.
Esquisita. Uma moça que usava uma blusa de malha por cima de uma camisa e depois um vestido por cima de um jeans.
Moderna.
Sorriso tímido.
Olhar profundo.
Depois começou a abusar e me chamar de besta.
Tantas viagens. Tantas bancadas divididas no banheiro, meu creme dental e minha escova de dente e o baú de cremes dela. Ela ainda hoje insiste em dizer que não.
E sempre me socorrendo, como se eu fosse um bichinho perdido.
Minha enfermeira em Cannes, na mais terrível crise de labirintite que um ser humano pode ter.
Desacreditando quando esqueci o cartão de embarque no toilette do aeroporto de Madrid, mas quites quando no desembarque tivemos que voltar para recuperar a bolsa dela que ficara no interior da aeronave...
Minha amiga de tantas histórias.
Minha amiga de tantos silêncios.
Minha amiga em tantas fotos.
Minha amiga em tantos e-mails.
Minha amiga em tantos recados.
Hoje minha amiga está fazendo uma prova, um vestibular, um desses perrengues que a vida nos aplica, assim de surpresa.
Ela vai tirar dez com louvor, é uma aluna aplicada.
Depois vamos comemorar essa vitória.
Besta. Ela é muito besta e por isso nos damos bem, eu acho, eu tenho certeza!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Sala de reunião

Quando o sol entra de mansinho pela janela, deixando tudo amarelo, eu me lembro.
E quando vai escurecendo, o coração vai ficando apertado porque eu me lembro.
Dos primeiros passos. Das primeiras pegadas que foram ficando.
Da confiança que foi nascendo.
Como criança que se sente pronta para pedalar sem rodinhas.
A mesa comprida, cheia de cadeiras presunçosas enquanto vazias e depois humilhadas, pesadas, ocupadas, arrastadas em reuniões sem fim.
A parede azul.
O silêncio protegido pelos vidros grossos da janela anti-ruído.
Esperava com o coração na mão.
E enquanto esperava escrevi um poema a meu pai, que poderia tê-lo lido se eu tivesse mostrado, coisa que já não é mais possível.
A conversa tímida.
O sotaque do outro que tardei a identificar.
O olho ávido pelo sim, mas as mãos sempre se despedem com uma promessa.
Nada planejado, mas tudo iniciado.
Uma indicação.
Uma paixão.
Uma vontade de fazer.
Se eu fosse mais displicente me entregaria menos, sofreria menos, cresceria mais.
Não teria saudades, não me lembraria quando o sol entra de mansinho pela janela, deixando tudo amarelo.
O barulho do ar condicionado ocupando as paredes brancas.
As plantas são de verdade.
A verdade é que somos o que vamos escrevendo ao longo da vida, não importa em que papel.