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terça-feira, 30 de junho de 2009

O bêbado da missa

Eu o vi na fila para receber a comunhão cristã, a hóstia sagrada, da missa da noite do domingo.
Não precisei mais do que um segundo para saber que estava embriagado.
Alto, magro, não sei quantos anos, mas não muitos, entre 50 - 55. Não sou boa nisso.
Um blusão escrito São Paulo atrás, mas não me convenceu de que fosse o seu time do coração.
Barba por fazer.
Manteve-se na fila e vi o padre lhe dispensar um olhar diferente, mas não fez nada além disso.
Tratou-o como qualquer outra pessoa da fila e seguiu seu ritual.
Ele saiu pelo corredor lateral e pude vê-lo de frente.
Alguém, além de mim, sofreu sua dor naquele momento? Acho que não.
As pessoas embriagadas despertam em mim comiseração. Não os bêbados de balada. Não os bêbados do futebol. Não os bêbados da faculdade.
Os embriagados das igrejas e das casas silenciosas, recolhidos em sua dor.
Ajoelhou-se atrás de uma pilastra, não muito longe de onde eu estava e com gestos suaves parecia conversar com um Deus mais que presente.
Depois, ficou por ali esperando a missa acabar e deixei-o ajoelhado no nicho de São José, orando uma oração infinita.
O frio do domingo à noite é diferente para quem tem uma segunda-feira para recomeçar.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Preciso reclamar ao Bispo

Minhas filhas estudam em um colégio católico.
Não foi um critério de escolha, estava embutido no pacote quando viemos morar na grande Jundiaí e tivemos que escolher um.
Depois deslumbramos uma vantagem: a preparação para primeira comunhão, a catequese, feita na própria escola.
Biblia comprada, agenda anotada: todas as quartas-feiras, depois da aula até as 14h40.
Carona com amiga pra voltar pra casa.
E então o rosário começou a se apresentar.
Hoje reunião de pais as 17h45. Com a presença do Padre Marcelo.
Ahh, mas não o Padre Marcelo da televisão, outro Marcelo. De quem sei apenas que descobriu sua inabalável fé com a avó nascida em Minas, analfabeta.
Meu lado esquerdo do cérebro entende literalmente todas as frases ditas pelo Padre, já o lado direito percebe a intenção oculta. O esquerdo se apega ao aspecto lógico, racional, sequencial e o direito compreende aos saltos, tem insights e visão holística.
E, como o lado direito comanda o esquerdo em última instância, tenho que concluir que não confio em pessoas que não nos olham diretamente nos olhos.
E desconcentro.
Nesse momento enquanto ele divaga em parábolas eu preparo um plano de marketing para a Igreja Católica. O target, as crianças, está correto, mas a estratégia está errada, a linha de comunicação não é clara. A trilha sonora não combina. Eles focam algumas ações nos pais com instrumentos que são praticamente tortura para os filhos.
O Instituto Alana deveria ter sido convocado para a reunião.
Nada dos conceitos de marketing são utilizados.
Sem ofender o latim o que percebo é que querem nos "enfiar goela abaixo" o seu produto, sua embalagem e seus benefícios. Seus atributos e posicionamento.
E eu nem posso reclamar ao Bispo porque em meu plano de marketing eu certamente começaria recomendando que a atitude fosse a de encantar o target, seduzir, envolver, que é o que as grandes marcas, produtos e serviços fazem. Algumas muito bem, outras nem tanto.
Mas, certamente, essas são palavras perigosas em tempos de batina substituídas por uma coleirinha branca em colarinho negro.