Nem a mãe, nem a manhã fria tirou do moleque o prazer de empinar a pipa.
Nem o lugar inóspito onde os seus o levaram para morar: beira de estrada, um quase barraco em um quase barranco pendurado ao lado de uma sofisticada auto-estrada.
Mas algumas pipas são indomáveis.
Aquela de um amarelo ouro fugiu do seu rapaz.
Enroscou-se no para-choque do caminhão e foi embora para sempre.
Até onde não sei.
Só sei que quando passei pelo caminhão o movimento diferente chamou a minha atenção.
A pipa fujona pegou carona enroscando-se ali e descansando de seu vôo solitário fazia planos para a próxima parada.
Quase adivinho o motorista de mãos duras desenroscando a pipa delicadamente.
Não porque pretendesse fazê-la voltar ao céu, não. Apenas porque com certeza ela lhe fazia lembrar de um tempo em que ele fora moleque.
Nem a mãe, nem o menino, nem o motorista e nem eu fomos capazes de convencer a pipa de que aquele não era o seu destino.
Mas as pipas são teimosas e o fluxo da Bandeirantes não deixa espaço para essas melosidades, como diria minha primogênita.
Fugiu do seus destino de pipa, mas não encontrou nada além da linha que a conduziu.
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quinta-feira, 14 de julho de 2011
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Pipas
As pequenas delícias fazem a felicidade maior.
Mas porque são pequenas não prestamos atenção.
Quando não as temos mais, nos sentimos desamparados.
Amoras no pé.
Amoras no chão.
E o que é uma fileira de amoras no jardim da frente da casa?
Um teatro, são formigas vindas da Malásia para uma grande apresentação!
Formigas que sofreram mutação.
Formigas que vão tingir nosso mundo sem graça com sua cor penetrante.
De tal sorte que quando mancha a camiseta nova, a mãe fica brava, muito brava. Já farta de tanta explicação.
E o que é um lençol secando no varal senão uma grande cortina atrás da qual se pode ficar escondida do joelho para cima.
Carinhas desenhadas nos joelhos direito e esquerdo podem ser personagens que contam uma história para uma platéia de irmãs caçulas.
E o que são dois tijolos se não a marca de um gol?
E o que é uma pastilha amarela de revestimento senão uma pedrinha de amarelinha guardada a sete chaves como se fosse uma relíquia, porque na hora do jogo, ah, não é necessário procurar um caquinho qualquer!
E o que são as mangas ainda verdes transformadas em mercadoria no armazém montado em cima de baldes e bacias?
E um talo de folha de mamona? O que é senão um canudo por onde se faz imprevisíveis bolhas de sabão com a água que a mãe prepara para deixar a roupa de molho?
São momentos em que não pensamos no que o futuro nos reserva, no que seremos, no que nos tornaremos.
Apenas somos, e quando apenas somos, todo o universo dá graças e a existência fica bem mais leve.
Será que ainda sei empinar pipa? Não custa tentar.
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