Era vermelho o espelho da sala.
Depois de um tempo ele também achou por bem começar a desbotar um pouco porque estava se tornando um objeto visível demais.
Enquanto a poltrona se queixa do pó e o aparador lamenta o cheiro barato do lustra móvel de agora.
O abajur, recolhido em sua vergonha de lâmpadas queimadas, mantém-se calado em seu canto.
As cadeiras disputam para serem usadas pelas raras visitas que aparecem para o chá.
Mas o aparelho de chá já não sai do armário.
Duas canecas vermelhas, Nescafé, servem para uma conversa sem reservas, sem luxo, sem expectativa, sem vida.
Nenhum amor esperando.
Nenhum jantar aguardando o RSVP.
Nenhuma viagem consultando a validade do passaporte.
Mas ainda é vermelho o espelho da sala.
A cortina entreaberta espia um jardim sem vida.
Uma roseira de espinhos grossos ainda gera uma flor por ano.
Os pesquisadores, entrevistadores dos institutos com longos questionários de perguntas desconexas não tocam campainhas de casas com roseiras no jardim.
Casas velhas, de gente velha, que não quer falar do novo rótulo da lasanha congelada.
Fotos espiam a movimentação. Mas não há movimentação.
O que há é um acordo tácito de não se deixarem flagrar com medo de uma caixa de papelão.
Ainda é vermelho o espelho da sala.
Ele apenas respeita o senhor do tempo e, por isso, também apresenta suas marcas.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Infância f(el)iz
As coisas mais simples são as mais caras para mim.
Chupar bala soft de morango torcendo para não engolir porque doía muito a garganta.
Papel colorido de ovo de páscoa. O chocolate era bom, mas o papel era mágico.
Meu patinete vermelho, que era de segunda mão.
Minha peteca, que destruída em dias serviu de modelo para minha própria criação: jornal bem amassado, um plástico firme para proteger e fazer o papel das penas e um elástico para amarrar.
Incrível.
Meu primeiro casaco vermelho, de capuz, de zíper. Presente de meu irmão adolescente que me levou com ele na loja e me deixou escolher!
Minha pasta preta do primeiro ano escolar. Ainda sinto seu cheiro de nova e o cheiro do lanche que ocupava ali um cantinho.
Meu balanço de cordas na mangueira.
O travesseiro velho e gordo que eu vestia com uma camiseta velha para ser o meu bebê. Bebês são volumosos, bonecas não servem para preencher um abraço.
Minha camiseta azul com listra vermelha nas mangas e gola, com a qual eu ia ao matinê no domingo.
Minha sandalhinha de trancinhas vermelhas.
Minhas paçoquinhas.
Meu gato amarelo que só se chamava Bichano.
Nenhuma dessas coisas está em alguma fotografia.
Nenhuma delas eu guardei de recordação.
Nada do que me foi caro custou sacrifício algum de um dinheiro que nunca tivemos.
Sou um mosaico.
Consigo olhar e ver que um chocolate que emoldura uma cara suja de criança é muito mais feliz do que o chocolate que ainda está embalado, em uma rica caixa, sobre uma rica mesa, de uma rica casa onde mora uma pobre mulher.
Chupar bala soft de morango torcendo para não engolir porque doía muito a garganta.
Papel colorido de ovo de páscoa. O chocolate era bom, mas o papel era mágico.
Meu patinete vermelho, que era de segunda mão.
Minha peteca, que destruída em dias serviu de modelo para minha própria criação: jornal bem amassado, um plástico firme para proteger e fazer o papel das penas e um elástico para amarrar.
Incrível.
Meu primeiro casaco vermelho, de capuz, de zíper. Presente de meu irmão adolescente que me levou com ele na loja e me deixou escolher!
Minha pasta preta do primeiro ano escolar. Ainda sinto seu cheiro de nova e o cheiro do lanche que ocupava ali um cantinho.
Meu balanço de cordas na mangueira.
O travesseiro velho e gordo que eu vestia com uma camiseta velha para ser o meu bebê. Bebês são volumosos, bonecas não servem para preencher um abraço.
Minha camiseta azul com listra vermelha nas mangas e gola, com a qual eu ia ao matinê no domingo.
Minha sandalhinha de trancinhas vermelhas.
Minhas paçoquinhas.
Meu gato amarelo que só se chamava Bichano.
Nenhuma dessas coisas está em alguma fotografia.
Nenhuma delas eu guardei de recordação.
Nada do que me foi caro custou sacrifício algum de um dinheiro que nunca tivemos.
Sou um mosaico.
Consigo olhar e ver que um chocolate que emoldura uma cara suja de criança é muito mais feliz do que o chocolate que ainda está embalado, em uma rica caixa, sobre uma rica mesa, de uma rica casa onde mora uma pobre mulher.
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Você tem aquele modelo...
Entro em uma loja de calçados esportivos em um shopping bacana.
O vendedor se aproxima sorridente. Um misto de surfista com os estudantes de comunicação, artes do período da manhã da FAAP.
- Posso ajudar? Procura algo especial?
- Você tem aquele modelo novo de tênis da Nike, aquele que você troca parte do solado e assim vai variando a cor?
- Nossa! Esse eu não recebi! Deve ser novo, mas a gente sempre recebe todas as novidades, vou até ver com meu gerente. Cara deve ser muito manero! Quer me deixar seu telefone? Assim que a gente receber eu te ligo.
- Ah, posso sim, mas eu já tenho cadastro aqui e blá blá blá.
Em outra loja, de outro shopping. Também bacana.
- Boa tarde... A moça diz sem ânimo e não me pergunta mais nada.
Circulo um pouco. Uma outra faz um movimento com a cabeça me indicando e ela se aproxima.
Cada vez com menos vontade. E lá vou eu:
- Você tem aquele modelo novo de tênis da Nike...
- Não. E nem é novo, é da coleção passada. Já acabou.
Humm... O fato é que esse modelo não existe. Eu apenas testei os comportamentos.
Nem de longe e muito menos de perto pode se chamar isso de pesquisa. É apenas xeretar um assunto.
Mas me pergunto: até onde vai a arrogância de algumas pessoas não é?
Um descaso comigo, com a minha pergunta, um menosprezo com o meu conhecimento... E nem é novo?
Eu apenas sorri e agradeci.
Com o rapaz eu fui mais generosa. Contei que estava fazendo um trabalho acadêmico pesquisando interesse pelo conceito do produto. Ele também foi generoso e não se chateou com a situação. Até batemos um papo sobre o assunto.
E já que eu estava ali, comprei um par de tênis novos e não, eles não trocam a cor do solado!
O vendedor se aproxima sorridente. Um misto de surfista com os estudantes de comunicação, artes do período da manhã da FAAP.
- Posso ajudar? Procura algo especial?
- Você tem aquele modelo novo de tênis da Nike, aquele que você troca parte do solado e assim vai variando a cor?
- Nossa! Esse eu não recebi! Deve ser novo, mas a gente sempre recebe todas as novidades, vou até ver com meu gerente. Cara deve ser muito manero! Quer me deixar seu telefone? Assim que a gente receber eu te ligo.
- Ah, posso sim, mas eu já tenho cadastro aqui e blá blá blá.
Em outra loja, de outro shopping. Também bacana.
- Boa tarde... A moça diz sem ânimo e não me pergunta mais nada.
Circulo um pouco. Uma outra faz um movimento com a cabeça me indicando e ela se aproxima.
Cada vez com menos vontade. E lá vou eu:
- Você tem aquele modelo novo de tênis da Nike...
- Não. E nem é novo, é da coleção passada. Já acabou.
Humm... O fato é que esse modelo não existe. Eu apenas testei os comportamentos.
Nem de longe e muito menos de perto pode se chamar isso de pesquisa. É apenas xeretar um assunto.
Mas me pergunto: até onde vai a arrogância de algumas pessoas não é?
Um descaso comigo, com a minha pergunta, um menosprezo com o meu conhecimento... E nem é novo?
Eu apenas sorri e agradeci.
Com o rapaz eu fui mais generosa. Contei que estava fazendo um trabalho acadêmico pesquisando interesse pelo conceito do produto. Ele também foi generoso e não se chateou com a situação. Até batemos um papo sobre o assunto.
E já que eu estava ali, comprei um par de tênis novos e não, eles não trocam a cor do solado!
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