segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O que pode estar escondido no quarto de brinquedos?

Minhas meninas estão crescendo.
Não é uma medida de pés descalços, coluna alinhada e olhos firmes para marcar a parede.
Não, é o desprendimento que me surpreende na seleção dos brinquedos que vão para a doação.
Em alguns momentos, agora entendo, foi o destempero que nos fez comprar tantos e tantos, mas tantos brinquedos!
Ninguém precisa de tanta coisa assim.
Barbies intocadas em seus vestidos de modelo e cabelos impecáveis! Minhas bonecas não são de bonecas e só dessa turminha, lá se foram umas dez!
Gostam quando são personagens. Uma Barbie fada tem uma história para contar...
Jogos. Coleções de robôs da revista Recreio. Alguns eletrônicos.
Não aos dinossauros, impávidos em seu cesto. Mas sim para alguns animais desgarrados de suas manadas e muitas vezes, repetidos.
Pelúcias, que carinhosamente chamo de porta pó, umas trinta, dessa vez, e já é a terceira vez esse ano.
E coisas miúdas que vão surgindo. E brinquedos de quando eram bebês.
Estão crescendo porque em outros momentos se agarravam ao brinquedo há meses abandonado dizendo: não, eu amo esse...
Para devolvê-lo ao baú minutos depois.
E dessa vez, para tudo que eu mostrava: sim, pode ir, sinal de positivo.
Fiquei aflita. Eu mesma queria me agarrar a alguns deles. Lembrando de quando os comprei.
Sempre levo para as caixas de coleta que a Drogaria São Paulo do Cenu disponibiliza. Eles levam para uma instituição e depois vemos fotos das crianças recebendo os presentes.
Ninguém precisa de tanta coisa. E brinquedos novos chegaram por conta de aniversários, vem aí o dia das crianças. É bom ser generoso. É bom movimentar. É bom passar uma tarde de sábado ensolarado, rindo, dando bronca, quebrando a unha, procurando sacolas gigantes.
Mas as meninas estão crescendo. Bem rápido do que eu planejei.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Ponto de ônibus

Ajeitou a saia com cara de quem está preocupada com a aparência e os bons modos.
Mas os olhos baixos não escondiam a vontade de levantar a saia, de arrancar a saia, de mudar de vida.
Queria mesmo era uma daquelas calças de marca, rasgadas mas novas, desbotadas mas novas, com uma etiqueta grande, de preferência de couro, de preferência no bolso de trás, indicando a direção de todos os olhares.
Ele apenas olhou de relance.
E então ela fingiu abotoar o botão da camisa, como se tivesse sido surpreendida por esse atrevimento de um botão que resolve deixar sua casa e escancara novos horizontes.
Mas ninguém olhou para esse novo horizonte.
Queria mesmo era comprar uma blusa listrada, de preferência branca e roxa, com uma fita amarrando na cintura que assim podia disfarçar que não era lá tão bem desenhada.
Ele nem notou.
Estava tão nervosa que acenou para um ônibus mas não era um ônibus circular, um fretado, um ônibus de turismo que a ignorou completamente e seguiu seu caminho.
Mas não o táxi. Não, o táxi não hesitou e ao ver o aceno da mão freou bruscamente diante dela.
Compreendeu rapidamente a situação e a confusão em que se metera.
Não, não ia dispensar o táxi na frente dele, não travaria um diálogo sem sentido, não conseguiria explicar a situação ao motorista curvada sobre a janela aberta do passageiro e com os olhos dele tentanto ouvir o que ela dizia.
Simplesmente embarcou.
Para onde?
De pensamento rápido, fingiu não ouvir e começou a remexer a bolsa desesperadamente, para ganhar tempo e assim que avançaram alguns metros:

- oh não, preciso descer, saí tão apressada que a carteira ficou em casa, pare moço, por favor, e mil desculpas pelo inconveniente
Ele freou de mau humor. Ela desceu aliviada.
Agora era caminhar porque não podia correr o risco de pegar, no próximo ponto, o ônibus com o seu príncipe dentro.
Era a sapa da história e não tinha esperanças de virar princesa!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

O Porto não era exatamente Seguro

Quando morávamos em São Paulo minha primogênita estudava no Porto Seguro.
A caçula, em casa, ainda não sonhava com seu destino escolar.
Há umas diferenças, umas nomenclaturas... enquanto estudava no Portinho, para alunos de até 4 anos, tudo ia muito bem.
Areia do playground azul, cozinha industrial encantadora, piscina aquecida, caminho de água, professora, auxiliar da professora e babá. Poucos alunos por sala.
Depois ela cresceu. Puxa, completou 4 anos! E lá se foi para o Portão. Edifício em frente ao Portinho.
Duas salas do Portinho compunham uma do Portão. E aí a coisa não foi muito bem.
Um dia o papai foi buscar porque havia quebrado o dedo, que ficou preso em uma porta de correr. Claro, ela era uma hiena fugindo de um caçador e calculou mal o tempo para fechar a porta.
Acontece, não vamos falar de segurança nesse contexto. Vamos ao dia em que fui chamada para uma reunião com a professora, agora já sem auxiliar e sem babá para uma reunião extraordinária.
Fui.
Dona ... Sim, lá as professoras são chamadas de Dona, porque não são parentes de ninguém para serem chamadas de tia, no que eu concordo absolutamente, e porque é preciso ensinar respeito e hierarquia.
Pois bem, a Dona Professora me relatou que minha primogênita tinha problemas de relacionamento com a turma e não conseguia participar da roda.
A roda era uma atividade diária, um dia um jogo, noutro dia uma leitura, e, para comprovar o fato relatou a seguinte situação vivida na roda:

- crianças, vocês dizem o nome de um bicho e os amiguinhos vão falar o que sabem sobre ele, qualquer informação vale

Na vez da minha pequena, interessadíssima por animais, por dinossauros, por detalhes:
- ornitorrinco

Silêncio na roda. E a Dona Professora:
- outro meu bem, esse os amiguinhos ainda não conhecem

- ouriço do mar

Silêncio na roda. E a Dona Professora:
- ah, vamos lá, diga algo como gato, cachorro, cavalo

E minha pequena indignada:
- o quê? esses bichos que todo mundo conhece? esses eu não falo, quer saber? eu nem quero ficar nessa roda de bobos

E eu para a Dona Professora:
- e por que não inverteu a brincadeira no segundo animal? poderia ter dito: olha que legal, se você conhece e os amiguinhos não, conte para eles como é esse bichinho aí, esse tal de ouriço do mar!

Silêncio na roda. Quer dizer, na reunião.
Não era seguro no que nos é mais precioso: criatividade, perspicácia, pensamento rápido.
Embarcamos em outra viagem, ancoramos em outro porto, que não tem areia azul, mas a roda recebeu bem os espinhos que carregamos.