sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Mimado

Mimado.
Tinha fomes específicas.
- não quero almoçar isso, quero macarrão com molho de atum
E ela, tão solícita, apesar do  branco do arroz ofuscar, do strogonoff amaciar qualquer estômago, relativizava o pedido fora de propósito
- ah, é assim mesmo, às vezes a gente tem fome de alguma coisa e outra até dá enjoo, eu sei bem como é, e é tão fácil de fazer, leva tempo nenhum...
- a senhora sabe como é? sempre provocava a filha mais  velha inconformada, a senhora que cresceu à base de polenta sabe como é? mimado, esse cara é mimado isso sim que ele é
E foi assim aos dez, aos quinze, aos vinte quando voltava nos finais de semana, aos trinta quando vinha só no Natal, e quando teve que vir fora de época porque...

Ficou na cozinha, mexeu nos armários, nas panelas, nas gavetas, fritou um ovo de qualquer jeito e foi misturando num tanto de arroz que jazia na panela, porque jazia para sempre os seus mimos numa lembrança qualquer.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O cão

Era religioso apenas com o horário de passear com o cão.
Não importava chuva, chuvisco, garoa. Noites estreladas e noites quase ensolaradas no horário de verão.
Mais que um passeio era uma rotina de oração aos seus pensamentos, que podiam se concentrar no vazio de apenas ser e caminhar.
Uma prece por noite. Um cansaço revigorante escondido atrás do que diziam ser um excelente exemplo de dono de bicho. De um cão saudável e feliz.
Tempo e terço, contas rezadas solitariamente.
Quando o cão adoeceu as preces se misturaram e ficaram confusas.
Quando a coleira sobrou inerte na área de serviço ele voltou a ser ateu.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Anastácia

Anastácia bordava, mas não vivia. Narrava uma biografia que construíra para ter a ilusão de uma vida melhor.
Cada ponto no tecido uma cena.
A garota sentada aos pés, descabelada e com a boca suja de manga gostava de ouvir as histórias, mas não sabia se acreditava.
Capítulo Um.
Eu nasci no mês mais lindo do ano, maio, mês das noivas...
- mas você nem casô Nastácia...
Não importa! Eu era uma bebê linda e gorducha de cabelos loiros, cheios de cachos e olhinhos bem azuis!
- mas você nem é dessa forma Nastácia, tem olho preto, cabelo preto...
Antigamente as crianças nasciam assim, bem lindas e depois iam mudando, não vê que hoje ainda algumas crianças nascem carecas e depois ficam bem cabeludas?
- mas olho muda de cor?
Eu era a caçula de cinco irmãos meninos e meu pai me tratou sempre como uma princesa!
- e princesa não tem coroa não Nastácia? cadê a sua?
Anastácia balançava a cabeça, nem que sim nem que não.
Um ponto forte, um ponto frouxo.
Deixa pra lá moleca, vai arranjar o que fazer!
Capítulo Dois.