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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O cão

Era religioso apenas com o horário de passear com o cão.
Não importava chuva, chuvisco, garoa. Noites estreladas e noites quase ensolaradas no horário de verão.
Mais que um passeio era uma rotina de oração aos seus pensamentos, que podiam se concentrar no vazio de apenas ser e caminhar.
Uma prece por noite. Um cansaço revigorante escondido atrás do que diziam ser um excelente exemplo de dono de bicho. De um cão saudável e feliz.
Tempo e terço, contas rezadas solitariamente.
Quando o cão adoeceu as preces se misturaram e ficaram confusas.
Quando a coleira sobrou inerte na área de serviço ele voltou a ser ateu.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Fotograma

Ele dirigia um caminhão de lixo, moreno, de boné, entrou na minha frente sem a menor cerimônia quando a preferencial era minha.
Eu não quis voltar a olhar para ele quando fez a curva, porque não queria sentir raiva de um ser humano que é apenas um infeliz exercendo o seu mísero poder.

Eram bonitos eles.
Ela em uma improvável calça cor de limão e camiseta branca apoiada na bicicleta, um pé no chão, um pé no ar. Os cabelos transformados fugindo do rabo de cavalo esvoaçando pelo rosto moreno e sorridente.
Ele suportava o peso da mochila para conversar mais e mais com ela. Parados na passarela da ponte. De onde vinham e para onde iam ninguém precisa saber.

O dono tinha uma aparência lamentável. O cão parecia um príncipe descansado no gramado, sobre o cobertor. Vira-lata. Loiro. Grande. Cara de bonachão. E depois, se fosse uma cadela, seria tudo isso e um pouco mais. Esperando seu destino de vira-lata de mendigo, parecia mais um rei bom.
São bons e fiéis os cães dos desvalidos.

Fotogramas do meu caminho.
Fotogramas da cidade.
Fotogramas que vão compondo o filme da minha retina, que repinta o que me faz sentir.



segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Infortúnio

Quis o infortúnio - acredito piamente na inocência do destino - que no dia 26 de julho de 2011 Haku nos deixasse.
Infortúnio: s.m. Fortuna adversa, desgraça, infelicidade: viver no infortúnio. Fato, acontecimento funesto.
Haku: cão da raça whippet, predominantemente branco, tigrado, 7 anos completados em 22 de janeiro de 2011.
Pois quis o infortúnio que saísse pelo portão da casa onde era visita, na cidade em que visitava vez ou outra e que nada do que foi feito resultasse em sua volta.
Nem as caminhadas, nem os folhetos, nem os anúncios, nem a internet e seus asseclas. Nada, somente pistas falsas.
O infortúnio é inimigo do destino.
Destino: s.m. A fatalidade a que estariam sujeitas todas as pessoas e todas as coisas do mundo; fado; fortuna: ninguém é senhor do seu destino.
O infortúnio faz acontecer de maneira tal que toda a culpa caia sobre o destino.
Mas eu acredito piamente na inocência do destino.
Já acreditei também que Haku pudesse voltar.
Lembro do seu olhar, dos seus pulos na hora de passear, do jeito de balançar a cabeça me pedindo pipoca.
A guia vermelha, a guia verde, ficaram penduradas como os enforcados das histórias que decorei para as provas escolares, sem vida.
Quis o destino que o infortúnio levasse o primeiro cão que tive, eu que cresci sem eles, aprendi muito depressa que, sem eles, a vida tem menos graça.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Haku

Notícias ruins nos abalam por um tempo, mas depois você segue em frente. Já a esperança é paralisante.
Eu ouvi isso em um seriado de TV que assisto pela internet e fiquei paralisada pensando no que acabara de ouvir.
Se não fosse esse o momento, o contexto, eu talvez não tivesse prestado atenção.
Acontece que passei quarenta anos sem ter um cão e os últimos sete anos fazendo parte de uma "matilha", porque é assim que nos vêem os cães.
Porque nunca antes eu tivera um cão é uma história para ser contada em algum outro momento.
É que nesse momento, tudo gira em torno da matilha que se desfez. Paralisante.
Em um momento estava lá, dormindo coberto com uma camiseta velha em sua caminha nova, vermelha. E no momento seguinte não estava mais.
Cidade algumas vezes visitada, casa frequentada, mas a euforia de um passeio independente o levou para longe, para não sei onde, para sempre?
E então a esperança é paralisante, apesar de nos fazer agir - cartazes, anúncios, carro de som, procura incessante, comunidades virtuais, promessas - nada nos dá a resposta que tanto queremos ouvir: está aqui!
Quando perdemos um bichinho por morte é uma perda com recordações.
Quando perdemos um bichinho assim, é uma dor com suposições.
Haku, dove sta bambino?

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A culpa não é da chuva

A culpa não é da chuva.
A chuva chove o calor que absorveu.
A água leva o que entre ela e seu caminho se estabeleceu.
Eu gosto da chuva.
Eu gosto do barulho da chuva.
Eu gosto do cheiro da chuva.
Ainda mais na mata molhada.
Eu gosto do céu quando se veste de escuro para uma solenidade.
Eventos curtos, antes da entrada triunfal do sol e de seu séquito de esplendor.
A culpa não é da chuva.
E a culpa não é das pessoas.
E quem pode cuidar das pessoas?
Quem pode prestar atenção na observação do especialista que pondera:
sempre analisamos impacto ambiental perguntando: o que a construção trará de impacto? Quando na verdade a primeira pergunta deveria ser: como esse lugar, essa vegetação, esse terreno pode impactar minha construção?
A culpa não é da chuva.
Os anjos estão trabalhando dobrado, improvisando para receber tanta gente sem ser anunciada.
E São Francisco, espero, está a postos para cuidar dos patos e marrecos, dos cães e gatos e dos passarinhos, por quem pouca gente vai se lamentar.
A culpa não é da chuva.
Vamos cancelar o carnaval e respeitar nossa tragédia.