segunda-feira, 31 de maio de 2010

Coisas de cinema

Minha primogênita ainda não tinha 2 anos quando recebi um convite para a pré estréia do filme infantil Rugrats. Ponderei e resolvi levá-la, já que era uma sessão especial, as 10 da manhã, só para convidados, ideal para observar o seu comportamento.
Encantada com o universo, assistiu o filme inteiro com pequenos comentários, sem pedir água, banheiro, mamadeira ou qualquer outra coisa.
Eu fiquei orgulhosa da minha pequena. Será que é assim que nasce um cinéfilo?
Na saída mostramos cartazes de outros filmes infantis que estavam em exibição e seguimos o curso de nosso primeiro final de semana com cinema na programação.
Na semana seguinte, quase dez da manhã, ela me puxa pela manga e começa:
- vamos, quelo ver "apantis"
Demorei a entender, mas compreendi. Ela queria repetir o sábado anterior indo ao cinema e queria ver Atlantis, o filme infantil que eu tinha mostrado no cartaz.
Consultamos rapidamente a programação e estava passando só no Jardim Sul, com uma sessão em uma hora. Voamos para lá. Uma sessão normal, compramos ingresso e, mamadeira a tiracolo, assistiu o filme inteirinho, sentada em sua cadeira, com cadeirinha para ajudar na altura, como quem sempre estivesse estado ali.
Um mundo novo se abriu e desde então não se perde um lançamento, uma pré estréia, com direito a todo o universo que o envolve: bonecos dos personagens, dvds, livros de onde as histórias se originaram e por aí vai.
Quando a caçula nasceu, esse mundo não foi nenhuma novidade.
Não temos o hábito de formular a famosa pergunta: o que vai ser quando crescer?
Até porque, uma das muitas crianças espertas que existem por aí já respondeu com muita propriedade: vou ser gente grande!
Mas é inevitável que se faça e gosto de ouvir as respostas sem o ônus de gerar essa expectativa, essa ansiedade.
Ao ser indagada, por volta dos 4 anos, o que seria quando crescesse, minha pequena respondeu categórica:
- vou trabalhar no cinema
- ah, vai ser atriz
Mas quase ofendida retrucou imediatamente:
- não... vou mandar na atriz, vou fazer o filme
E entendi que ela ainda não sabia uma palavra: cineasta.
Carrega isso em seu discurso até hoje. Escreve histórias que diz que filmará, inventa personagens, cria cenas, dirige nossas falas durante o jantar. Assiste trechos de filme sem som enquanto ouve uma música no fone de ouvido para "encaixar" a cena, cria finais diferentes para histórias consagradas. Reconhece a voz dos dubladores: ah, essa voz é a mesmo do...
Usa fragmentos dos textos para inserir em suas conversas desde muito pequena.
Antes mesmo dos 5, ao ser mandada sentar e pensar sobre uma traquinagem bradou:
- Justiça!
E não era senão Esmeralda, a cigana do Corcunda de Notre Dame, bradando em cena comovente!
Está crescendo a minha menina.
Ontem, no café da manhã, eu comentava sobre um problema do cotidiano e ela filosofou:
- Olha, encare a vida como se fosse um filme. Se algo der errado é como se o diretor dissesse: corta, isso não está bom!
E, percebendo que meus olhos se encheram de lágrimas, tentou me fazer rir:
- Meu nome pode ser meio esquisito, como o do Naruto, mas um dia vai estar nas telonas, na abertura de um filme!
Não quero cortes, está bom assim, mesmo que tenha um final diferente, agora, está muito bom assim!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Cavalos

Cavalos vêm e vão com seus olhos impressionantes.
Cavalos carregam a alma toda em seus olhos.
Por isso grandes, por isso profundos, por isso nos atravessam com seus olhares e por isso não falam. Não precisam.
Sócrates, um pangaré que quando percebia que eu o encaminhava para a cocheira apoiava a cabeça em meu ombro. Agradecido. Velho, cansado.
Não servia mais para as aulas de equitação para as crianças porque, apesar de muito doce, fazia sozinho todos os movimentos.
Ele mesmo sabia. E como avaliar o avanço nas aulas se o próprio professor fazia a lição?
Cavalos que vêm e vão.
Bodon, um brasileiro de hipismo alto, elegante, que perdia toda a classe quando a cama nova estava pronta, porque se atirava nela com estardalhaço assustando quem não conhecia suas manias.
- ele está passando mal? nunca vi cavalo deitar
- não, está apenas aproveitando a cama nova...
E malandro, olhando de lado, não perdia a chance de comer o boné das crianças que, em fila, visitam a hípica.
Cavalo de calça.
Cavalo marinho.
Cavalo de tróia.
Cavalo de caminhão. Sem sua carga, sem sua alma.
Cavalos que vêm e vão.
Galope infinito de pernas fortes e crinas ao vento.
Cavalos que dançam para o rei. Na Real Escuela Andaluza del Arte Ecuestre em Jerez de la Frontera, na Espanha, um castelo para acomodar o rei, um castelo tímido perto da arena dos maestros. Elegantes. Impressionantes.
Cavalos que vêm e que não vão!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

É fácil observar

A fumaça é engraçada. Ela quer desviar a atenção da beleza do fogo com sua feiúra.
Ela está convencida de sua feiúra, não eu, mas ela não ouve ninguém.
Embaça tudo, afasta quem tenta se aproximar, mas ela não existe sem ele. E quando ele morre, ela vai mudando de cor, até desaparecer.
Quase a mesma situação em que vive o espinho no talo da rosa. Mas eles não se conhecem. Até pode ser que um grande incêndio tenha destruído uma roseira. E ambos em sua dor podem ter trocado um olhar cúmplice, mas quem poderia ter registrado isso?

As relações são cheias de armadilhas. A lua, quase transparente, tem a audácia de aparecer de dia enquanto o sol brilha. Passa pelo céu com aquele ar de mulher que sai do banho enrolada na toalha querendo ser vista pela janela, ou flagrada pela visita que a espera na sala.
Uma cara de surpresa que não surpreende ninguém.
A lua parece um gato dormindo em lugar proibido. O sol, elegante, finge que não vê.
Ele não tem esse descaramento. O sol da meia noite não vale, é um fenômeno que ocorre nas latitudes acima de 66º 33’ 39" N ou S, onde ele não se põe durante pelo menos 95 horas seguidas. Em latitudes superiores a 80 graus, não se põe por mais de setenta dias, não há noites durante mais de dois meses.
Talvez seja um jeito dele se vingar sem castigar tanta gente que não merece o desplante da lua.

Relações, fáceis de serem observadas, difíceis de serem vividas.