segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O destino das coisas

Eu me preocupo com o destino das coisas. Novas ou velhas.
Não pelo fator moderno da sustentabilidade.
Há quarenta anos, quando perdia um lápis na escola ficava apreensiva com a solidão dele, embaixo de uma carteira qualquer, no escuro, sozinho, sem o calor dos meus dedos magros.
Então, não é de hoje que o destino das coisas ocupa espaço em mim.
Velhas ou novas, eu sofro por elas.
Hoje de manhã ouvi no rádio a notícia das aeronaves. Fiquei triste.
São ao todo, por todo o país, 119 aeronaves abandonadas nos aeroportos.
Em Congonhas há nove jatos da antiga Vasp. Ocupam um espaço do tamanho de três campos de futebol. Não voam desde 2005.
Será que fui passageira em um deles?
Que medo devem sentir.
Que saudade arrepiante devem ter quando ouvem os roncos das turbinas naquele sobe e desce exagerado dos que estão em plena atividade.
As brigas judiciais por esse patrimônio corroem o porte imponente.
Depois de ouvir no rádio fui ler mais a respeito e descobri que um ex-funcionário da Vasp tenta, sozinho, evitar o pior. Ele toma conta daqueles gigantes indefesos e doentes.
Ele diz: Entro, vejo, olho as portas, se não estão abertas, se está entrando água, se não está danificada, com problema. Se não tem ventania que deu e soltou. Tem que manter sempre olhando.
O nome dele é Josafat Cândido.
Cândido é um nome cheio de significados.
Fico pensando que aqueles grandalhões devem ter um amor enorme por esse homem e que o maior medo deles, ainda que secreto, é que um dia ele não chegue para verificar se entrou água.
Para Josafat também é ruim ver os aviões abandonados, sucateados: Eu me sinto um coração em pedaços, ele diz.
Não sei se o Sr. Josafat vai contar a eles que o plano é desmontá-los, vender as peças, porque inteiro ninguém quer comprar, leilões já fracassaram.
Eu comprava se pudesse. E soltava no ar que nem passarinho, só pelo prazer de salvar as coisas de seus destinos sem humanidade.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uma poesia

E então choveu
Como há muito vinha chovendo
E caminhei na beira dos muros
Tentando me proteger
Não dos pingos grossos
De mim mesma
Do medo de chegar
Do medo de secar os pés
Do medo de estacionar
E então o sol apareceu
Como se o verão nunca mais fosse acabar
E eu me esgueirei pelas sombras
Não das árvores  
Das marquises
E do meu medo de me confrontar
Vou deixar para pensar depois
E então respirei
Aliviada como quem descobre que pode sorrir
A natureza que brota em mim é selvagem
Como a samambaia que brota na madeira
Abandonada no quintal
Ela fere sem se importar
E então anoiteceu
Mas não anoitece para sempre
E não improvisei nenhuma luz
Vou apenas esperar

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Senhorinha

Eu sinto falta das flores.
Quando era criança, depois mocinho, quando me casei, sempre tive casa com quintal de terra para plantar.
Na frente rosas, hortênsias, cravos, dálias.
E no fundo do quintal hortelã, cebolinha, salsinha, dependendo do espaço de terra até alface, almeirão.
Eu sinto falta de tudo isso.
Mas hoje em dia, mesmo nas cidades do interior, as pessoas perderam essa coisa de ter planta, ter jardim plantado no chão de terra.
Agora todo mundo quer ter as plantas nos vasos.
Não querem ter trabalho de limpar o quintal. Reclamam das folhas das árvores que sujam as calçadas, querem cortar.
Eu, da minha parte, acho isso tudo muito triste.
Aqui no apartamento do meu filho então, piorou.
A minha nora não gosta de planta, não quer saber.
Acha que dá trabalho até mesmo ter um cacto que fica dias sem precisar de água.
Ela tem umas coisas esquisitas pra enfeitar. Umas estantes tão cheias de coisas que isso sim é que dá um trabalho danado pra deixar sem pó.
Mas, não é ela que limpa.
E nem eu porque ela não gosta que eu ajudo a moça que cuida da casa, ela fala que não é pra criar intimidade.
Eu fico quieta.
Cada um com sua casa e com sua vida.
Eu bem queria continuar morando na minha casa, mas ela era grande, ficou vazia, até que seja vendida e me arrumem um desses apartamentos que falam que vai ser aqui por perto, eu fico quietinha, tento não atrapalhar.
Mas no meu apartamento vai ter planta, nem que seja no vaso! Muitos vasos.
Eu sinto falta das flores.
Eu sinto falta de muitas coisas.