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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Santo sem andor

O domingo foi chuvoso.
A piscina aquecida acalmou a ansiedade das crianças que puderam mergulhar mesmo com aquela chuvinha fina. Uma chuvinha de sorriso de lado, de quem sabe que não é bem vindo, mas se diverte impondo sua presença.
À noite também choveu.
E a segunda-feira, como era de se esperar, amanheceu chuvosa.
Uma chuva sem preguiça de cair. Forte, saudável, sem piedade de molhar os pardais não abrigados nos beirais dos telhados.
E as estradas são um capítulo à parte em dias de chuva.
Uns mais atrevidos do que outros. Uns mais precavidos do que outros e em certos momentos, tanto uns quanto outros podem ser prejudiciais à saúde dos motoristas diários dessas grandes avenidas.
De repente me senti em uma procissão sem santo no andor, tamanha a lentidão em que a fila seguia.
Quando voltamos a mudar marchas e acelerar, um santo apareceu pouco antes de uma curva fechada.
Um santo homem que caminhava pelo acostamento, sem se abrigar da chuva, mas passo decidido de quem vai trabalhar.
Fez um sinal com a mão, alertando sobre a velocidade.
Um gesto simples de quem cumprimenta um amigo.
Um gesto de quem observa os controladores de tráfego.
Um gesto de quem, mesmo caminhando na chuva, se importa com quem vai confortavelmente instalado, aquecido, ouvindo música.
Um gesto que, obedecido, impediu uma grande colisão porque logo após a curva, uma fila enorme de carros e caminhões se formara, de tal sorte que não víamos antes de lá chegar e de má sorte porque sem o santo do acostamento não teríamos como evitar o choque.
Ele passou por mim. Ele passou por nós.
Espero que os santos dos andores possam agradecê-lo pelo gesto que para mim valeu muito e do qual, a essa hora, ele nem deve se lembrar.
Alguém mais além de mim?

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Anhanguera

Anhanguera, apelido de Bartolomeu Bueno da Silva, bandeirante que ameaçou os índios dizendo que iria colocar fogo na água deles se não lhe entregassem o ouro que tinham.
Anhanguera, espírito maligno, diabo velho.
A Rodovia se recente desse nome. Corre quase paralela à Rodovia dos Bandeirantes. Esse nome sim, justa homenagem.
E ela sabe também que não é a minha preferida, que quando por ali estou é porque a Bandeirantes sofreu algum contratempo, obras ou acidentes que retardam a viagem.
E me olha de lado, estreita as pistas, faz brotar caminhões e ônibus e carros mais acelerados do que indicam as placas.
E se curva, sinuosidades sem sensualidade, assustadoras.
E enquanto me assusta, me afronta, exibindo suas margens verdejantes de uma beleza que não posso admirar.
Atenção redobrada que tensiona as mãos. 
Anhanguera.
Ela se recente do apelido e atropela os incautos.
Abre uma faixa extra como quem vai receber bem e de repente se dobra em curva e se recolhe em sua estreiteza.
Escancara sua mágoa.
Separa ir e vir em muro duro, baixo, carrancudo.
A Anhanguera tem mágoas que não posso descrever.
Acumula histórias que não sei narrar.
Vou insistir na conquista.
Vou desacelerar.
Vou olhar os morros.
Vou encontrar uma árvore magnífica para fotografar.
Como bandeirante vou desbravar sem pedir nada em troca, a não ser, que me deixe passar!
Carregamos nossos nomes, ela precisa aprender que isso não pode nos martirizar.