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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Mãos Cegas

Abriu a bolsa.
Sabia que não precisa de nada do que estava lá.
Olhou, procurou com as mãos cegas.
Sabia que não encontraria ali nada do que estava procurando.
Estava procurando a calma de dias passados.
A ternura das palavras ditas sem preocupação.
Procurava um jeito de desaparecer.
Um jeito de recomeçar.
Um jeito de reconhecer.
Abriu a bolsa, mas procurava dentro de si um novo jeito.
De olhar, de sentir, de falar, de tocar.
De contar que aquela história não tinha importância.
Que aquele momento foi muito infeliz.
Que aquele futuro que planejaram ainda era possível.
Procurou com as mãos cegas um caminho que sabia nunca estaria pronto.
Que nunca estaria livre de pontes rotas, de pedras silenciosas esperando a lua criar sombras.
Nunca se viu sombras tão lindas quanto às geradas pela lua.
Serenas, suaves.
Diferente das sombras do sol. Duras, marcadas. Irrequietas.
Abriu a bolsa enquanto passavam porque assim não precisava levantar os olhos.
As mãos cegas protegeram o coração daquele batuque ritmado e tudo passou.
Nunca mais seria como antes, mas pelo menos, agora, tudo estava de novo em seu lugar.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O caso das bolsas

Diferente dos adultos as crianças e os adolescentes trocam todo o guarda-roupa por estação.
O verão chegou e nada mais serve. Fechamos os olhos, apertamos solidariamente os cartões dentro do bolso e vamos às compras.
Em um desses eventos levo minha primogênita a uma charmosa loja especializada em roupas para adolescentes – Just4me.
Compramos algumas peças e uma bolsa entra no radar das intenções.
Na hora de fechar a compra eu pergunto: não vai levar a bolsa?
A resposta é não.
Uma bolsa pequena, bonita, interessante para qualquer mulher, não apenas para as teens.
Passou.
Dias depois, volto à loja por uma bermuda e aproveito para comprar a bolsa. Para mim.
Ao chegar em casa: olha você comprou a bolsa!
- Comprei para mim, você tinha desistido...
- Que absurdo! Eu acho a bolsa, eu quero comprar a bolsa e você compra pra você?
- Está bem pode ficar, mas eu tinha pensado em usar amanhã no aniversário do... e domingo no aniversário da...
- Eu te empresto e pra trabalhar você pode usar umas duas vezes por semana, no máximo!
Fui ao aniversário. Ok.
Fui ao almoço. Ela contou a história pra muitas pessoas e pensei: não vai rolar.
Voltei à loja. Comprei outra, da mesma cor, mas outro modelo e... menor, outro tamanho, não são muitas unidades. Mas pensei: tranqüilo, eu troco com ela.
Em casa apresento-lhe a segunda opção: ah eu prefiro a minha mesmo, nessa daqui não cabem as minhas coisas...
Não rolou a troca.
No meio de tudo a minha caçula tem sua participação especial: é, comprou pra você, comprou pra ela, e pra mim nada! Eu queria aquela azul, com um laço!
Está bem, eu passo lá. Ai meu santo generoso provedor das futilidades imprescindíveis, abasteça minha conta corrente.
Não pude ir à loja, trabalho, almoço fora, preparação para festa da firma!
E quando a festa começa, uma das queridas amigas se aproxima sorridente e diz:
- Olha, comprei na loja dos adolescentes! E exibe a bolsa azul de laço!
O que será que eu digo lá em casa?