Agora que tenho uma adolescente de doze anos preciso de uma auto avaliação.
Chegar aqui significou fazer a primeira prova do vestibular.
Estudar, pesquisar, experimentar coisas diferentes. Ficar sem dormir, conversar com outras pessoas o tempo todo sobre o mesmo assunto.
Contar o que senti.
Contar o que não senti e deveria ter sentido.
Exercícios importantes que deixei de fazer.
Exercícios inúteis que refiz muitas vezes.
E não adianta aproveitar tudo isso para a prova que ainda tem nove anos porque há perguntas diferentes.
Perguntas que podem ter duplo sentido nas respostas.
Pegadinhas.
Agora preparo-me para a segunda prova, a de aptidão, habilidade, específica ou seja lá que nome essa prova tenha agora.
Passei na primeira fase. Passei? Ainda não sei em que classificação, mas passei, sim.
Rumo a segunda.
Sempre fui boa aluna, mas provas, vestibulares sempre me deixam um pouco aflita.
A sorte é que posso fazer a prova em dupla e escolhi e fui escolhida pelo melhor "carinha" dessa classe - a vida.
Vamos em frente! A banca está sempre atenta!
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terça-feira, 4 de outubro de 2011
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Adolescente
tenho um frágil passarinho nas mãos
não tem asa quebrada, mas ainda tem medo de voar
o medo do coelhinho assustado
que não quer ficar na toca, mas que quando na toca não está
tem medo do que possa ser
transição é uma palavra que assusta
ninguém transita bem por ela
é sempre um não saber alguma coisa
tenho um delicado tecido para bordar
qualquer ponto apertado demais pode rasgar,
frouxo demais pode desmanchar
as minhas palavras dançam melhor em coreografias de papel
não quando são ditas entre caras e bocas
digo o que não penso,
não penso no que digo
cada peso tem sua medida exata
tenho um frágil passarinho nas mãos
que quero forte
que quero livre
que quero de voo seguro
preciso aprender para ensinar
não tem asa quebrada, mas ainda tem medo de voar
o medo do coelhinho assustado
que não quer ficar na toca, mas que quando na toca não está
tem medo do que possa ser
transição é uma palavra que assusta
ninguém transita bem por ela
é sempre um não saber alguma coisa
tenho um delicado tecido para bordar
qualquer ponto apertado demais pode rasgar,
frouxo demais pode desmanchar
as minhas palavras dançam melhor em coreografias de papel
não quando são ditas entre caras e bocas
digo o que não penso,
não penso no que digo
cada peso tem sua medida exata
tenho um frágil passarinho nas mãos
que quero forte
que quero livre
que quero de voo seguro
preciso aprender para ensinar
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
O caso das bolsas
Diferente dos adultos as crianças e os adolescentes trocam todo o guarda-roupa por estação.
O verão chegou e nada mais serve. Fechamos os olhos, apertamos solidariamente os cartões dentro do bolso e vamos às compras.
Em um desses eventos levo minha primogênita a uma charmosa loja especializada em roupas para adolescentes – Just4me.
Compramos algumas peças e uma bolsa entra no radar das intenções.
Na hora de fechar a compra eu pergunto: não vai levar a bolsa?
A resposta é não.
Uma bolsa pequena, bonita, interessante para qualquer mulher, não apenas para as teens.
Passou.
Dias depois, volto à loja por uma bermuda e aproveito para comprar a bolsa. Para mim.
Ao chegar em casa: olha você comprou a bolsa!
- Comprei para mim, você tinha desistido...
- Que absurdo! Eu acho a bolsa, eu quero comprar a bolsa e você compra pra você?
- Está bem pode ficar, mas eu tinha pensado em usar amanhã no aniversário do... e domingo no aniversário da...
- Eu te empresto e pra trabalhar você pode usar umas duas vezes por semana, no máximo!
Fui ao aniversário. Ok.
Fui ao almoço. Ela contou a história pra muitas pessoas e pensei: não vai rolar.
Voltei à loja. Comprei outra, da mesma cor, mas outro modelo e... menor, outro tamanho, não são muitas unidades. Mas pensei: tranqüilo, eu troco com ela.
Em casa apresento-lhe a segunda opção: ah eu prefiro a minha mesmo, nessa daqui não cabem as minhas coisas...
Não rolou a troca.
No meio de tudo a minha caçula tem sua participação especial: é, comprou pra você, comprou pra ela, e pra mim nada! Eu queria aquela azul, com um laço!
Está bem, eu passo lá. Ai meu santo generoso provedor das futilidades imprescindíveis, abasteça minha conta corrente.
Não pude ir à loja, trabalho, almoço fora, preparação para festa da firma!
E quando a festa começa, uma das queridas amigas se aproxima sorridente e diz:
- Olha, comprei na loja dos adolescentes! E exibe a bolsa azul de laço!
O que será que eu digo lá em casa?
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Cibele
Tinha um nome diferente a menina, nem Luciana, nem Adriana, nem Mariana, um nome simples, mas diferente, desses que muitos acham bonito e muitos acham feio.
E era bonita a menina. A adolescente entre as meninas que almejavam ser e por isso olhava de lado, passava sem sorrir, não brincava mais, ah não, isso não.
Era morena.
Tinha os cabelos negros à meia altura. Começam lisos e depois ficavam cacheados, uma cascata.
Era dengosa.
Os meninos faziam rodinha para olhar, comentar, rir, desejar.
Mesmo de bermuda e camiseta parecia uma princesa.
E aquele olhar escuro, de quase soberba, de saber-se com três anos a mais que as meninas que ainda andavam descalças, apertando as saias entre as pernas para andar nas bicicletas maiores que elas.
Era boa aluna a morena.
Já estudava em uma escola para maiores.
E tinha amigos diferentes da turma da rua, que lhe visitam com os livros embaixo do braço, já faziam trabalhos que levavam a tarde inteira.
Tinha irmãos e irmãs a menina bonita.
Maiores e menores.
Tinha pai, mãe, uma vida organizada, uma casa boa, nem melhor nem pior do que as outras casas da rua.
E cachorros pelo quintal.
Um dia comentou-se na rua que a menina bonita ia mal na escola.
O pai brigou, achou que era coisa de namoradinho.
A mãe não entendeu.
A professora chamou e disse que a menina dormia durante a aula.
O irmão vigiou, será que saia a noite ou não dormia escrevendo poesias, bilhetes de amor?
Ninguém suspeitou que talvez a menina estivesse doente.
A professora má lhe jogou na cabeça o apagador quando ela pousou a cabeça nos braços cruzados sobre a carteira e dormiu.
Foi demais.
O pai foi falar com o diretor.
A mãe foi falar com doutor.
Pouco tempo depois a menina morena, bonita, morreu.
Tinha uma leucemia em estado tão avançado que nem padeceu.
Naquele tempo era doença que nem se nomeava, que não tinha cura e as crianças todas da rua ficaram com medo por muito tempo.
A rua ficou sem graça e todo mundo foi crescendo sem muito alarde.
E era bonita a menina. A adolescente entre as meninas que almejavam ser e por isso olhava de lado, passava sem sorrir, não brincava mais, ah não, isso não.
Era morena.
Tinha os cabelos negros à meia altura. Começam lisos e depois ficavam cacheados, uma cascata.
Era dengosa.
Os meninos faziam rodinha para olhar, comentar, rir, desejar.
Mesmo de bermuda e camiseta parecia uma princesa.
E aquele olhar escuro, de quase soberba, de saber-se com três anos a mais que as meninas que ainda andavam descalças, apertando as saias entre as pernas para andar nas bicicletas maiores que elas.
Era boa aluna a morena.
Já estudava em uma escola para maiores.
E tinha amigos diferentes da turma da rua, que lhe visitam com os livros embaixo do braço, já faziam trabalhos que levavam a tarde inteira.
Tinha irmãos e irmãs a menina bonita.
Maiores e menores.
Tinha pai, mãe, uma vida organizada, uma casa boa, nem melhor nem pior do que as outras casas da rua.
E cachorros pelo quintal.
Um dia comentou-se na rua que a menina bonita ia mal na escola.
O pai brigou, achou que era coisa de namoradinho.
A mãe não entendeu.
A professora chamou e disse que a menina dormia durante a aula.
O irmão vigiou, será que saia a noite ou não dormia escrevendo poesias, bilhetes de amor?
Ninguém suspeitou que talvez a menina estivesse doente.
A professora má lhe jogou na cabeça o apagador quando ela pousou a cabeça nos braços cruzados sobre a carteira e dormiu.
Foi demais.
O pai foi falar com o diretor.
A mãe foi falar com doutor.
Pouco tempo depois a menina morena, bonita, morreu.
Tinha uma leucemia em estado tão avançado que nem padeceu.
Naquele tempo era doença que nem se nomeava, que não tinha cura e as crianças todas da rua ficaram com medo por muito tempo.
A rua ficou sem graça e todo mundo foi crescendo sem muito alarde.
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