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segunda-feira, 16 de março de 2015

Ah Alzira...

A Alzira era uma menina comum.
Tirando o fato de se chamar Alzira. Nascera no mesmo dia em que a bisavó e a avó, emocionada, sugeriu o nome.
A mãe não gostou, mas estava fraca de tanto esforço para parir menina tão pequena que nem opinou.
O pai que andava às turras com a velha, mas que precisaria dela nos cuidados da casa, da mulher e da filha, capitulou.
Ele, de fato, queria mesmo um moleque então tanto fazia.
Alzira não era feia nem bonita.
Nem magra nem gorda. Nem alta nem baixa. Uma menina comum.
Não tinha cabelos loiros cheios de cachos. Não tinha covinha num rosto redondo e rosado.
Alzira não tinha olhos azuis nem verdes.
Alzira não era nem muito morena nem muito branca.
Alzira chorava quando tinha fome, mas não fazia escândalo.
Quando começou a andar, a falar, quando deixou as fraldas, quando começou a escovar os dentes sem ajuda foi desaparecendo dentro de casa. Alzira não dava trabalho. Era uma menina comum, uma menina quieta.
Se as meninas da rua chamavam para brincar, levava sua boneca, sentava e brincava.
Se não chamavam, pegava sua boneca, sentava em um canto e brincava.
Alzira não dava trabalho. Alzira era uma menina comum, crescendo e desaparecendo sem brilho nenhum.
Na escola não era a primeira aluna, mas também não era das piores. Uma menina quase invisível. Por isso, a mãe levou um susto imenso quando na reunião de professores foi chamada na sala ao lado por uma diretora carrancuda que a advertiu: a Alzira precisa de freio! Pois ela levanta a saia e mostra a calcinha para os meninos e até mesmo para o professor!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Fuga

Andou de lá pra cá, de cá pra lá e não tinha nada a dizer.
Voltou da escola mais cedo, com o joelho ralado.
A mãe, espantada, perguntou o motivo, mal ouviu a resposta e seguiu estendendo a roupa no varal.
Foi para o quarto que dividia com os outros dois irmãos.
Olhou para cá, para lá e pela janela através da cortina de pano barato.
Tirou o lanche da mochila e comeu.
Encheu o tapete de farelo.
Não gostava de tapete, sempre tropeçava, ficava desarrumado e era motivo para as broncas da mãe.
Mãe... Pra que cuidar tanto de uma casa tão pobre e tão feia? Precisava limpar tanto? Por tanto pano na janela, no chão, se era tudo pano velho?
Apertava o coração com medo do padre que dizia que ter inveja era pecado.
Ele tinha inveja do Sérgio. Que tinha uma casa linda, que tinha tênis de tudo quanto é tipo, sempre tão novos e limpos. Tinha a mochila mais bonita da turma. Nem levava lanche, comprava de tudo na cantina todo dia.
Ele tinha inveja. Tinha medo, mas tinha inveja.
Era por isso que tinha dado tanto nele pouco antes do intervalo, quando se esbarraram no corredor.
Não era motivo. Todo mundo falou. O professor, a diretora. Suspenso. Ele que sempre fora tão tímido e quieto que quase invisível? 
Queria poder nunca mais voltar para a escola e olhar para o que não tinha.
A mãe chamou para almoçar. Ele saiu pela janela pensando em nunca mais voltar.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Crush

Chegou em casa na hora certa e como era certo, foi deixando as coisas pelo caminho.
A bolsa na sala, um não sei o que na cozinha onde foi beber água, as sapatilhas no corredor até chegar ao quarto.
Deu um beijo estalado na mãe.
- que agitada, nem esse calor de 40 graus te desanima?
- no
- e como foi na escola?
- tudo bem...
Não cresceu como a mãe esperava, mas não era nanica. Não era gorda, mas estava longe de ser magra.
O macacão laranja não era exatamente a peça que a mãe escolheria se ainda a ajudasse a se vestir para a escola, mas evitava discussões inúteis.
- pode fazer o caminho de volta e recolher as coisas que foi deixando pelo caminho mocinha?
- já, já mãe, preciso procurar uma coisa aqui no Google... peraí
Não bisbilhotava as coisas da filha, mas era preocupada e vigilante.
- e o que é essa coisa tão importante, posso saber?
- crush... meu professor de matemática me disse que eu estava parecendo uma garrafinha de crush e o outro ainda disse delícia... quero ver como é
A mãe entendeu.
Ela ainda teria que refinar a busca porque as imagens das novas embalagens não entregariam nada assim tão fácil.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Onde é que vende?

Há 13 anos o coração do velho Nicolino jogou a toalha e parou de bater.
Em uma semana tudo aconteceu e ele se foi.
Quando teve o primeiro ataque cardíaco não pensei em nada, apenas tomei um avião e fui vê-lo.
Fiquei olhando para ele naquela cama de hospital, pálido, com os olhos azuis ainda brilhantes e falamos apenas de coisas interessantes.
Levei algumas revistas.
Comentei que traria novas pedras para a coleção de cidades de Portugal para onde eu iria em férias.
No final de semana voltei para casa.
Uma semana depois refiz a viagem mais triste da minha vida.
Pronto. Isso é tudo.
13 anos são suficientes para relembrar do momento doloroso.
Agora ficarão apenas as coisas boas e inusitadas que ainda me espantam e me enchem o coração de alegria.
Como o dia em que fomos juntos ao colégio em Presidente Prudente, recém chegados de Tupã, porque a diretora havia dito que não tinha vaga porque não tinha cadeira... E ele me fez acompanhá-lo para ouvi-lo dizer:
- bom, imagino que quem ensina 28 alunos pode ensinar 29, principalmente porque a minha filha aprende rápido, pode ver o histórico da outra escola, e se não tem carteira, não tem problema, eu compro uma, onde é que vende?
Na volta as aulas, lá estava eu, estudando no melhor colégio recomendado... público, obviamente, e nem foi preciso comprar uma carteira!

segunda-feira, 21 de março de 2011

Repor um esquadro

Quando chego em casa do trabalho há pouco tempo para ficar com as meninas, que dormem cedo por conta da escola.
Às vezes dá tempo de jantarmos juntas, outras não.
E é muito comum que uma ou outra tenha uma história para contar só para mim, uma espécie de segredo.
Valentina me chama ao quarto para uma delas:
- Mãe, talvez você tenha que repor um esquadro...
- É, por quê?
- Porque a Ana leva um esquadro pra escola e olha que nem estava na lista de material! E esquadro tem uma ponta que parece uma arma e ela fica apontando pras crianças, cutucando, machuca, ela quase furou o olho!
- E você não contou para a professora?
- Não... Sabe por quê? Eu e o Léo tivemos uma idéia: eu distraí a Ana e o Léo jogou o esquadro dela no lixo! Antes ele jogou em cima do armário, mas ela ia encontrar e tudo ia acontecer de novo. Então jogamos no lixo. Por isso, se vier um bilhete da escola, talvez você tenha que repor um esquadro.
- E ela não chorou? Perguntou? Procurou?
- Ela nem percebeu... Mas, vai que você recebe um bilhete já é melhor eu ir contando né?

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Diário Resgatado

01/02/05 07:33 cama nova para Valentina... ela ficou muito feliz, mas faz uma bagunça na hora de dormir! alcança tudo sobre a cômoda, ontem derrubou um copo com água, um esparramo!
ontem foi o primeiro dia de aula de Antonella no colégio novo, Divina Providência (espero que o nome faça jus)

o que ela mais gostou, nessa ordem:
da biblioteca
do playground
da classe e,
da cadela

a biblioteca me emocionou, gostar de livros, gostar de ler me salvou a vida inteira e o gosto dela pelos livros me alegra, me tranquiliza, me
anima, me dá esperanças

playground e classe, normal
a cadela mora na entrada do colégio e segundo ela, ontem ela não teve
oportunidade de passar a mão, mas hoje, com certeza, vai tentar!!!

quando eu disse que havia ficado com saudades dela, pensando nela lá
na escola, com gente que ainda não conhecia ela me disse, firme como
uma rocha:
- mãe, não precisa né, a escola é o escritório da criança...

mais uma lição

Valentina segue falando tudo o que guardou esse tempo todo, e me
emociono cada vez que descubro que ela sabe falar coisas que eu nem
imaginava e que articula e que pensa e que já "trama"

quer ir cedo para a cama (porque é nova) e tarda a dormir está cada vez mais loirinha e linda e brava que não sei se terei forças para enfrentar

uma coisa é certa: estou cercada de vida inteligente e isso me deixará
jovem para sempre

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Cibele

Tinha um nome diferente a menina, nem Luciana, nem Adriana, nem Mariana, um nome simples, mas diferente, desses que muitos acham bonito e muitos acham feio.

E era bonita a menina. A adolescente entre as meninas que almejavam ser e por isso olhava de lado, passava sem sorrir, não brincava mais, ah não, isso não.
Era morena.
Tinha os cabelos negros à meia altura. Começam lisos e depois ficavam cacheados, uma cascata.
Era dengosa.
Os meninos faziam rodinha para olhar, comentar, rir, desejar.
Mesmo de bermuda e camiseta parecia uma princesa.
E aquele olhar escuro, de quase soberba, de saber-se com três anos a mais que as meninas que ainda andavam descalças, apertando as saias entre as pernas para andar nas bicicletas maiores que elas.
Era boa aluna a morena.
Já estudava em uma escola para maiores.
E tinha amigos diferentes da turma da rua, que lhe visitam com os livros embaixo do braço, já faziam trabalhos que levavam a tarde inteira.
Tinha irmãos e irmãs a menina bonita.
Maiores e menores.
Tinha pai, mãe, uma vida organizada, uma casa boa, nem melhor nem pior do que as outras casas da rua.
E cachorros pelo quintal.
Um dia comentou-se na rua que a menina bonita ia mal na escola.
O pai brigou, achou que era coisa de namoradinho.
A mãe não entendeu.
A professora chamou e disse que a menina dormia durante a aula.
O irmão vigiou, será que saia a noite ou não dormia escrevendo poesias, bilhetes de amor?
Ninguém suspeitou que talvez a menina estivesse doente.
A professora má lhe jogou na cabeça o apagador quando ela pousou a cabeça nos braços cruzados sobre a carteira e dormiu.
Foi demais.
O pai foi falar com o diretor.
A mãe foi falar com doutor.
Pouco tempo depois a menina morena, bonita, morreu.
Tinha uma leucemia em estado tão avançado que nem padeceu.
Naquele tempo era doença que nem se nomeava, que não tinha cura e as crianças todas da rua ficaram com medo por muito tempo.
A rua ficou sem graça e todo mundo foi crescendo sem muito alarde.