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terça-feira, 5 de abril de 2011

A Mada

Era uma mulher amarga.
Ninguém sabia.
Sorria o tempo todo e sabia usar o batom como ninguém.
As roupas eram coloridas e modernas.
Nada espalhafatoso, mas nada que indicasse a tristeza escondida.
Era uma mulher segura "da boca pra fora", como dizem todos.
E eu, e ela também.
Da boca para dentro era um embate entre língua e dentes que ninguém podia supor.
O que queria era dizer que ia à missa, mas que não acreditava mais no credo.
Que tinha medo de umbanda, mas que não se importaria em se sentar em uma mesa branca.
A mesa das mesas brancas é branca? Ou são apenas toalhas que podem ficar amareladas e puídas de tanto esperar pelo espírito que vem em paz e seriamente.
Não apenas aquele brincalhão que gosta de ver os pelos dos braços arrepiados.
Era uma mulher amarga.
Ninguém sabia.
E pra quê haveria alguém de saber?
Isso era lá coisa dela.
Sorria o tempo todo mesmo sabendo que aquele camarada nunca mais ia voltar.
Mesmo sabendo que aquele emprego era um tédio, mas pra quê recomeçar?
O que queria era dizer que tomava vinho, mas que a vodca lhe descia melhor.
Que deixava que lhe chamassem de Mada, mas que seu nome inteiro tinha muito mais valor.
Que a janela vivia aberta só porque do contrário o mofo seria muito pior.
Que passava a mão na cabeça das crianças com a esperança de que elas fossem logo brincar.
Era mulher amarga.
Ninguém sabia.
Nunca deixaria um bilhete ou um diário, essas bobagens de sempre e de hoje em dia e, por isso, era uma mulher amarga e nunca ninguém saberia!

terça-feira, 22 de março de 2011

É fato

Sempre gostei de diários.
Mas eles são doloridos.
Algumas vezes porque nos lembramos de tudo outra vez.
Outras vezes porque não nos lembramos daqueles nomes, daquelas cenas.
Bobagens.
Hoje em dia muita gente tem diário.
Não porque mais pessoas se encantaram com o exercício solitário de escrever e de se perscrutar.
Não, não por isso, simplesmente porque foram criadas ferramentas digitais, facebook, twitter.
Diferentemente do diário que guardávamos a sete chaves, esses diários modernos se alimentam de audiência e nossa vida é exposta como se estivesse em uma vitrine.
Mudanças de humor.
Viagens.
Troca de emprego.
Troca de namorado.
Festas. Shows.
Tudo para todo mundo. Devidamente documentado com foto.
Não é uma análise pessimista, longe disso.
Eu revisito meu estado de espírito nos espaços que preencho logo após o “no que você está pensando agora”?
3 de Julho de 2009 às 15:56 
Lusia Nicolino nem tudo o que tem reflexo tem nexo

30 de Julho de 2009 às 17:37 
Lusia Nicolino quem ama o feio... tem mais opções

13 de Novembro de 2009 às 19:28
Lusia Nicolino pai nosso que estais no céu (que vidão, hein?!) livrai-me dos imbecis, hoje e para sempre!

Fui buscar lá longe... O futuro me espera, mas não consigo abandonar o passado feito um sapato velho.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Diário Resgatado

01/02/05 07:33 cama nova para Valentina... ela ficou muito feliz, mas faz uma bagunça na hora de dormir! alcança tudo sobre a cômoda, ontem derrubou um copo com água, um esparramo!
ontem foi o primeiro dia de aula de Antonella no colégio novo, Divina Providência (espero que o nome faça jus)

o que ela mais gostou, nessa ordem:
da biblioteca
do playground
da classe e,
da cadela

a biblioteca me emocionou, gostar de livros, gostar de ler me salvou a vida inteira e o gosto dela pelos livros me alegra, me tranquiliza, me
anima, me dá esperanças

playground e classe, normal
a cadela mora na entrada do colégio e segundo ela, ontem ela não teve
oportunidade de passar a mão, mas hoje, com certeza, vai tentar!!!

quando eu disse que havia ficado com saudades dela, pensando nela lá
na escola, com gente que ainda não conhecia ela me disse, firme como
uma rocha:
- mãe, não precisa né, a escola é o escritório da criança...

mais uma lição

Valentina segue falando tudo o que guardou esse tempo todo, e me
emociono cada vez que descubro que ela sabe falar coisas que eu nem
imaginava e que articula e que pensa e que já "trama"

quer ir cedo para a cama (porque é nova) e tarda a dormir está cada vez mais loirinha e linda e brava que não sei se terei forças para enfrentar

uma coisa é certa: estou cercada de vida inteligente e isso me deixará
jovem para sempre

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Acabou-se

Não podia falar tudo o que queria porque fazia sofrer as pessoas.
Não podia comer tudo o que queria porque faltaria para outras pessoas.
Não podia estar sozinho o tempo que queria porque diziam dele que era solitário.
Não podia beber todos os dias porque falariam dele que precisava de tratamento.
E assim ia rabiscando em um caderno tudo o que não tinha feito naquele dia pensando nos outros.
Chamou-o diário de privações e esperava que quando morresse alguém pudesse divertir-se com aquilo.
Fora alguns que poderiam ficar ligeiramente chateados.
De vez em quando folheava para consultar velhas anotações.
E divertia-se também.

16 de agosto de 2008
De manhã não pude tomar suco de morango porque é o preferido da Eva e tinha muito pouco.
Fiquei olhando ela tomar e babar naquele copo de flor, aquele líquido vermelho e quase cremoso. Pensei em passar no supermercado, comprar um litro e tomar sozinho quando chegasse ao escritório, cedo, ainda sem ninguém.

Não fiz isso.
E não fiz isso porque tive que deixar a Ana Elisa no trabalho e ela não poderia saber. E o percurso todo seria modificado. E o horário todo seria modificado.

E assim seguia o dia 16 de agosto com algumas outras privações.
Tudo tão nonsense que só a ele cabia entender.
Aceitar a situação. Registrar para metabolizar a frustração, muitas vezes a raiva.
E foi folheando esse caderninho, o último de muitos, ouvindo música com o fone de ouvidos, que foi deixado à deriva quando o curto circuito começou e a tragédia toda se deu.