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sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Nome de rua

Sonhava ser nome de rua.
Sonhava com coisas tão bobas.
Ficava pensando que se salvasse alguém de um incêndio, um bebê, uma senhorinha, poderia ter sua foto no jornal e depois virar nome de rua.
Sonhava com isso.
E ficava pensando que coisas aquelas pessoas tinham feito para terem seus nomes nas placas da rua.
Um era médico que ele sabia.
O outro era fundador da cidade.
Um dos nomes mais esquisitos tinha sido um padre alemão que ensinava ler e escrever além de rezar.
Sonhava ser nome de rua.
Talvez se fizesse um grupo bem grande de amigos e depois se candidatasse a vereador, depois poderia ser nome de rua.
Confessava esse sonho a qualquer um que lhe desse atenção.
Normalmente a mãe.
A avó também, mas essa mal ouvia, nem devia entender o que era tudo aquilo.
Um dia teve um incêndio enorme na loja de tecidos na rua principal da cidade.
Estava do outro lado da calçada.
Não duvidou, entrou, ajudou as moças a saírem, voltou e salvou uma peça inteira de tecido desses que se usa para fazer vestido de noiva.
Ficou com o cabelo sapecado. Com o braço e as mão queimadas.
Esperou uma notícia no jornal. Nada.
Sonhava ser nome de rua, outro sonho não tinha.
Viver pelo simples pode ser mais doloroso do que viver pelo glorioso.
Quem define?

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Acabou-se

Não podia falar tudo o que queria porque fazia sofrer as pessoas.
Não podia comer tudo o que queria porque faltaria para outras pessoas.
Não podia estar sozinho o tempo que queria porque diziam dele que era solitário.
Não podia beber todos os dias porque falariam dele que precisava de tratamento.
E assim ia rabiscando em um caderno tudo o que não tinha feito naquele dia pensando nos outros.
Chamou-o diário de privações e esperava que quando morresse alguém pudesse divertir-se com aquilo.
Fora alguns que poderiam ficar ligeiramente chateados.
De vez em quando folheava para consultar velhas anotações.
E divertia-se também.

16 de agosto de 2008
De manhã não pude tomar suco de morango porque é o preferido da Eva e tinha muito pouco.
Fiquei olhando ela tomar e babar naquele copo de flor, aquele líquido vermelho e quase cremoso. Pensei em passar no supermercado, comprar um litro e tomar sozinho quando chegasse ao escritório, cedo, ainda sem ninguém.

Não fiz isso.
E não fiz isso porque tive que deixar a Ana Elisa no trabalho e ela não poderia saber. E o percurso todo seria modificado. E o horário todo seria modificado.

E assim seguia o dia 16 de agosto com algumas outras privações.
Tudo tão nonsense que só a ele cabia entender.
Aceitar a situação. Registrar para metabolizar a frustração, muitas vezes a raiva.
E foi folheando esse caderninho, o último de muitos, ouvindo música com o fone de ouvidos, que foi deixado à deriva quando o curto circuito começou e a tragédia toda se deu.