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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Acabou-se

Não podia falar tudo o que queria porque fazia sofrer as pessoas.
Não podia comer tudo o que queria porque faltaria para outras pessoas.
Não podia estar sozinho o tempo que queria porque diziam dele que era solitário.
Não podia beber todos os dias porque falariam dele que precisava de tratamento.
E assim ia rabiscando em um caderno tudo o que não tinha feito naquele dia pensando nos outros.
Chamou-o diário de privações e esperava que quando morresse alguém pudesse divertir-se com aquilo.
Fora alguns que poderiam ficar ligeiramente chateados.
De vez em quando folheava para consultar velhas anotações.
E divertia-se também.

16 de agosto de 2008
De manhã não pude tomar suco de morango porque é o preferido da Eva e tinha muito pouco.
Fiquei olhando ela tomar e babar naquele copo de flor, aquele líquido vermelho e quase cremoso. Pensei em passar no supermercado, comprar um litro e tomar sozinho quando chegasse ao escritório, cedo, ainda sem ninguém.

Não fiz isso.
E não fiz isso porque tive que deixar a Ana Elisa no trabalho e ela não poderia saber. E o percurso todo seria modificado. E o horário todo seria modificado.

E assim seguia o dia 16 de agosto com algumas outras privações.
Tudo tão nonsense que só a ele cabia entender.
Aceitar a situação. Registrar para metabolizar a frustração, muitas vezes a raiva.
E foi folheando esse caderninho, o último de muitos, ouvindo música com o fone de ouvidos, que foi deixado à deriva quando o curto circuito começou e a tragédia toda se deu.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Reflexão


Para que tantos sapatos se a graça era mesmo ficar descalço e pisar a grama, a areia grossa, a terra molhada?

E um armário entupido de roupas se confortável mesmo era andar em mangas de camisa, uma bermuda feita de uma calça velha cortada na altura dos joelhos?
E para que manter tantas cartas amareladas naquela caixa florida, já desbotada, de vez em quando espanada da poeira inevitável?
Esse tempo já passara.
Não deixou nenhuma cicatriz, nenhuma dor de chorar, mas também nenhuma medalha, nem um ato de heroísmo para contar.
Andou para cá e para lá.
Viajou.
Conheceu pessoas.
Esteve em festas.
Deu festas.
Aparece em uma série de fotografias guardadas em casas fechadas, de histórias veladas.
E ele mesmo coleciona uma série de fotos e em muitas delas sorrisos de pessoas que já não se lembra quem eram, quem são e mesmo assim, as conserva.
Para que tantos discos, CDs, se a graça mesmo é ser surpreendido pela música que toca no rádio. Estilos misturados, cantores consagrados, cantores que recém surgiram na internet. Entre músicas de antigamente e músicas de amanhã a publicidade engraçada de serviços do interior.
Para que uma dúzia de ovos?
Para que uma melancia inteira?
Modernos supermercados que pensam nos que vivem alone, como é chic dizer.
Para que tanta pressa de chegar ao futuro se ele é agora e é assim?
Cheio de coisas que se pode comprar, pagar, ter, colecionar, trocar, mostrar e tão vazia de alguém pra simplesmente abraçar, conversar, rir ou apenas ficar calado olhando o sol se por.