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sexta-feira, 4 de abril de 2014

De cães e tapetes

Pensou em um jeito de dizer não, mas não encontrou.
Dizia sim desde sempre.
As pessoas riam dela.
Ela sentia-se bem quando era criança, mas conforme foi crescendo foi se achando a pessoa mais boba do mundo.
Quando tentava não ser boba não dava certo.
Ela com ela mesma se desintegrava e era um tal de tanto pensar que tontificava.
Estava decidida a ser boba até o fim.
O que tinha a seus pés e que não se importava com esse jeito era o tapete.
Nada além do tapete.
Tinha um gato. Mas ele não era desses gatos grudados que ficam deitados no colo e um cachorro não podia ter.
Cachorros exigem demais e ela não tinha muita coisa a oferecer.
Naquele dia, quanto o telefone tocou, ela ficou eufórica pensando que receberia uma proposta.
Mas era só uma consulta.
Talvez por essa frustração momentânea falou sem muitas conjecturas e falou tudo o que realmente devia falar.
Quando terminou percebeu que tinha dito a verdade, sem sofrer, sem parecer boba, apenas disse, num tom de voz nem alto nem baixo. Ponderou que não queria prejudicar ninguém, mas que fato era que...
E assim, pela primeira vez, aos ouvidos de alguém ela teria sido má.
Não doeu tanto.
Sim, já era hora de ter um cachorro e era hora de trocar o tapete da sala.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Pitoco

Era Pitoco o nome do cachorro.
Foi o que ele conseguiu dizer entre soluços.
Quando Dona Alzira foi varrer a calçada deu de cara com aquele molequinho sentado na sarjeta, com a cabeça baixa apoiada nos braços cruzados sobre o joelho e que se sacudia todo de tanto chorar.
- hei menino o que foi que houve?
- foi o Pitoco
- que Pitoco?
- o meu cachorro, ele veio atrás de mim, eu corri pra atravessar a rua e ele não conseguiu passar, o carro pegou, o Pitoco, o meu Pitoco
- e onde ele está?
- a moça do carro levou ele pro médico de cachorro, mas não quis me levar porque falou que a minha mãe ia ficar brava
- e onde você mora?
- agora eu moro aqui, até ela voltar

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Os bichos do meu caminho

Pelas ruas do bairro alguns cães meus conhecidos.
O menor, mais atrevido, um baixinho de cor preta que olha para os lados antes de atravessar a rua e adora instigar os que ainda estão atrás dos muros e portões.
No almoço, as pombas tão mal queridas em sua existência sem remédio. Eu observo as mais gordas e as mais magras, as de cor cinza com colar esverdeado, as brancas tão sujas da cidade.
No pet shop os cães para doação. O filhote tímido com cara de lobo, a cadela cor de mel que sabe que precisa daquele olhar para ganhar um lar.
Não posso fazer contato visual porque meu coração fica pesado e dolorido por muitos dias.
Os vira-latas são lindos, são queridos, só precisam de um lar, comida e carinho.
Esses dias, olhando para um deles, as meninas já entusiasmadas o papai até sugeriu:
- um bom nome para um vira-lata é Paraguaio, não é?
E a vontade era de levar o Paraguaio para casa, tão simpático nos olhando pelo vidro, já sobre uma cadeira que o expunha melhor.
Querer não é poder. Será que não?
Mas depois disso tudo, um alento: o cavalo já não está só.
Já bem perto de casa em um grande terreno, o mato, às vezes alto, alimenta desde que me lembro um cavalo branco, um pangaré magro, sempre cabisbaixo. Que tinha um companheiro marrom, que algum dia sumiu, deixando o branco ainda mais cabisbaixo.
Eu passei a olhar de viés, com medo de ver a tristeza naqueles grandes olhos negros.
Mas hoje, hoje pude olhar bem porque outro companheiro chegou. Outro pangaré branco.
Já posso ficar mais tranqüila sabendo que quando chove, faz frio, eles podem se aproximar e trocar impressões sobre a vida.
Sobre a vida humilde de serem os cavalos de alguém que provavelmente os usa para o trabalho.
A vida pode ser humilde, dura, o que ela não pode nunca é ser sozinha.