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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Canteiro Central

Era bonita. Para olhos não exigentes com a simetria das formas.
Pequena. Morena. Cabelos lisos.
Ele não era feio. Distinto. Negro, magro, maduro.
Ele segurava um papel na mão e ela indicava a direção, o melhor caminho.
Canteiro central da avenida travestida de carros, enfeitada de motos, como se fossem os gigantescos colares de um pescoço disforme.
O guarda no farol olhava mais o rebolado de quem corria para atravessar a rua do que para o motorista inventando uma improvável quarta pista de rolagem.
Eles estão indiferentes. Ele perguntou, ela respondeu.
Ninguém percebeu.
Ele agradeceu comovido. Comovido? Impossível afirmar.
Ela sorriu como quem diz imagina, não foi nada.
Ele foi para a direita e ela para a esquerda.
Ou vice-versa dependendo do olhar.
Eu não fui para lado nenhum, engolida pelo congestionamento, mas pude ver a vida gentil que pode existir no canteiro central.
E então está bem, ficamos assim.




quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O moço do farol

Dia de muitos afazeres.
Um sol lindo.
Um cheiro de verão que se prepara para chegar.
Tudo ia bem.
Eu ia cantando no carro, na rua que desce com preguiça.
O ar condicionado gelando o espaço pequeno.
E ele estava lá.
Quando parei o carro no sinal vermelho não pude deixar de olhar para ele.
Ele deveria distribuir as balas e os chicletes nos retrovisores, mas estava sem forças.
Sentado no canteiro da árvore silenciosa e constrangida ele tomava um líquido verde de uma garrafa transparente.
Não estava bem.
Sentia uma dor que eu adivinhei e talvez apenas eu e mais ninguém.
Transpirava. Não era só o calor do meio dia.
Tinha dor.
Um moço. Um moço ainda. Braços fortes para vender coisas tão leves quanto balas e chicletes.
Melhor que bala de revólver, mas ele estava doente e eu não fiz nada além de acelerar o carro quando o farol abriu e pedir por ele.
Como saber se meu pedido foi atendido?
Certas coisas nunca se sabe.
Dores diferentes, algumas passam, outras apenas se retiram por um tempo.