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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Silêncio

O silêncio cobriu a sala como um lençol branco que protege os móveis depois que alguém enviuvou.
O silêncio pode ser mais cruel do que palavras que atropelam a situação e se embaralham no embate até se perderam em um copo d água.
O silêncio embaraça.
O silêncio constrange.
O silêncio permite ouvir o coração que não cabe no peito.
O silêncio permite ver a dança da pulsação do punho que acompanha a mão.
O silêncio avança noite adentro e não tem pressa.
O silêncio desperta os pássaros e não se importa com a algazarra deles.
O silêncio permite o farfalhar das árvores que adoram brincar com o vento.
O silêncio não se importa com a cantoria da cigarra.
O silêncio é maior do que tudo isso.
O silêncio suporta o barulho do mar.
O silêncio dói.
Quando o silêncio cobriu a sala ele procurou desesperadamente uma palavra, mas não estava acostumado a ser o primeiro a falar.
Quando o silêncio cobriu a sala ele nunca imaginou que ela fosse permitir.
Quando o silêncio cobriu a sala ele entendeu que seria como um lençol branco que iria proteger os móveis depois que alguém enviuvou.
Ele nunca acreditou que fosse ele e saiu sem bater a porta.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O moço do farol

Dia de muitos afazeres.
Um sol lindo.
Um cheiro de verão que se prepara para chegar.
Tudo ia bem.
Eu ia cantando no carro, na rua que desce com preguiça.
O ar condicionado gelando o espaço pequeno.
E ele estava lá.
Quando parei o carro no sinal vermelho não pude deixar de olhar para ele.
Ele deveria distribuir as balas e os chicletes nos retrovisores, mas estava sem forças.
Sentado no canteiro da árvore silenciosa e constrangida ele tomava um líquido verde de uma garrafa transparente.
Não estava bem.
Sentia uma dor que eu adivinhei e talvez apenas eu e mais ninguém.
Transpirava. Não era só o calor do meio dia.
Tinha dor.
Um moço. Um moço ainda. Braços fortes para vender coisas tão leves quanto balas e chicletes.
Melhor que bala de revólver, mas ele estava doente e eu não fiz nada além de acelerar o carro quando o farol abriu e pedir por ele.
Como saber se meu pedido foi atendido?
Certas coisas nunca se sabe.
Dores diferentes, algumas passam, outras apenas se retiram por um tempo.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Asa quebrada

Menina bonita quando chora parte o coração.
O sorriso vai embora, os olhos perdem o brilho.
Menina bonita quando fica doente
Aperta o coração da gente.
Eu quero trocar de lugar
Deixa doer aqui que já sei que vai passar
E eu faço mais força pra dor se cansar e me abandonar.
Menina bonita quando chora derruba orvalho
Menina bonita quando tem dor não quer saber de nada,
Nem mesmo do computador
O livro fica quietinho na mesinha de cabeceira
A luz tão baixa que a Etevalda quase pega no sono
Coruja preguiçosa, sempre na cadeira que se quer ocupar
Menina bonita quando chora parte o coração
Da mãe que está tão longe, mas que já vai voar para carinhar