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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Doce de Abóbora

A avó fazia doce de abóbora com coco. Ela adorava.
Quando penteava seus cabelos repartia ao meio e ela ficava com uma cara gozada. Mas deixava assim mesmo.
A avó rezava o terço, ela fechava os olhos e ficava rolando as continhas entre os dedos, vez ou outra mexia os lábios, meneava de leve a cabeça.
A avó adorava tomar sopa, mesmo no verão. Ela deixava esfriar, tomava depressa para acabar logo e quando a avó ia dormir comia uns biscoitos na despensa.
A avó gostava de passar roupas. Ela aproveitava a quietude e lia poesias para a avó.
Viviam bem. Viviam juntas. Os únicos momentos de tensão, ansiados e postergados, eram os momentos em que experimentava perguntar sobre a mãe.
A avó enchia a boca de doce de abóbora e fazia sinal de que com a boca cheia não podia falar.
E a questão engordava a menina, que já não brincava na rua por não conseguir correr.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A menina e o relógio

Conheci uma menina, entre tantas meninas que conheci, que se divertia com suas histórias e que não se envergonhava de contá-las.
Uma menina de existência pesada, que ela tornava leve conforme transformava as histórias no clássico clichê seria trágico se não fosse cômico.
E me contava entre espantada e sorridente que muito, mas muito queria ganhar um relógio e não podia comprar.
De certa feita ganhou um, que às vezes funcionava, outras nem tanto, que não era moderno, mas também não era ultrapassado. Que era de segunda mão, não fora comprado pensando nela, mas que somando aqui subtraindo ali era um relógio e era dela.
E como era dela e era um relógio ela queria que todos vissem.
Voltando para casa em um sábado de noite quente, depois de uma festinha, percebeu um grupo de meninos, quase da mesma idade. Iam um pouco à frente e então apertou o passo e, ao passar por eles, repetidamente olhou para o relógio, levantando o pulso bem alto. E uma vez e outra. Exibindo sua preciosidade.
Mas o efeito foi bem outro...
Diante da insistência do gesto um dos garotos comentou:
- isso, rápido que o papai deve estar bem bravo com a filhinha atrasada...
Foi um balde de água fria. Vida cheia de clichês.
E re-encontro essa menina, bem passada dos trinta, que me conta histórias de sua existência leve, mas histórias que, por ora, não posso publicar!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Asa quebrada

Menina bonita quando chora parte o coração.
O sorriso vai embora, os olhos perdem o brilho.
Menina bonita quando fica doente
Aperta o coração da gente.
Eu quero trocar de lugar
Deixa doer aqui que já sei que vai passar
E eu faço mais força pra dor se cansar e me abandonar.
Menina bonita quando chora derruba orvalho
Menina bonita quando tem dor não quer saber de nada,
Nem mesmo do computador
O livro fica quietinho na mesinha de cabeceira
A luz tão baixa que a Etevalda quase pega no sono
Coruja preguiçosa, sempre na cadeira que se quer ocupar
Menina bonita quando chora parte o coração
Da mãe que está tão longe, mas que já vai voar para carinhar