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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O sonho do João

Gostava de ser palhaço de circo, mas era pedreiro.
Ela gostava de ser professora, mas era costureira.
Gostava de ser cantor, mas era encanador.
Gostava de ser médica, mas trabalhava no balcão da farmácia.
Gostava de ser engenheiro, mas era mecânico.
Gostava de pintar quadros, mas era passadeira.
Gostava de ser marinheiro, mas era balconista na lanchonete.
Ela gostava de trabalhar no banco, mas era ascensorista.
E ainda diziam que logo isso ia acabar, tudo moderno, lá precisa de alguém o dia todo pra apertar um botão?
Ele gostava de ser caminhoneiro, mas era pipoqueiro, não sabia ler não senhor.
Gostava de ser bailarina, mas era babá.
Gostava de ser locutor de rádio, mas era metalúrgico.
Gostava de ser advogado, mas era chaveiro.
É, tirando um e outro com história bonita que aparece na revista e no rádio quem tem fome de comida não tem tempo de correr atrás de sonho não.
Era isso o que a mãe do João falava todo dia porque ele queria tocar guitarra na televisão.
Ela falava que isso também era coisa que ele escutava na música do rádio.
Ah João... não é cem por cento das coisas que a gente tem que ouvir da mãe não!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Eu levo a sério as promessas

Somos eternos quando nos vemos refletidos.
Ontem, ao dar um beijo de boa noite em minha primogênita ela me disse:
- mãe, escrevi uma letra de música, eu deixo você ler se você não chorar
Peguei o papel.
A letra desenhada construía estrofes, em inglês.
De um sentimento tão profundo que entendi o porquê da promessa de não chorar.
E não chorei.
Eu levo a sério as promessas.
Aqueles versos ficaram em mim.
Fiz uma cópia que repousa em minha mesinha de cabeceira por esquecimento.
Queria tê-la aqui comigo.
Não poderia reproduzi-la, não ainda, porque de novo eu prometi diante da menina que para disfarçar uma timidez que raramente aparece pediu:
- não torne pública... é duro ser uma star!
Somos eternos quando nos vemos refletidos.
Aos onze anos eu não mostrava minhas folhinhas rabiscadas para minha mãe ou irmãs mais velhas, mas eu as escrevia com o mesmo sentimento de quem já viveu mais do que consta na carteira de identidade.
Outros tempos.
Eu levo a sério as promessas, mas posso dizer que uma das frases da música diz que o tempo não apaga o amor.
É uma pergunta retórica, mas... a vida não é surpreendente em cada segundo?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Nem sempre poesia

Não quero o ônus de dizer sim
Não quero o medo de dizer não
Entre tantas coisas que são ditas,
As que ficam entre as entrelinhas     
Exasperam de menos
Desesperam de mais
Não quero o medo do dedo em riste
Não quero uma aventura sem limite
Ônus de dizer sim
Bônus de ficar sem saber
O tempo que corre
Escorre pelos dedos magros
Os olhos perdem o brilho
O sorriso perde o encanto
Que medo da vida que vem
Que alívio da história que se constrói
A olhos nus crescem
A olhos nus emudecem os pedidos
De dia das crianças
De Natal, de Páscoa
E que desespero se noite dessas
Eu encontrar a fada do dente
Sentada em um canto com um resto
De presente
Não quero o ônus de dizer sim
Quando o coração diz que não
Não quero o bônus de uma vida inteira
Por uma metade que deixei de cumprir
Há um conta gotas que me conta
Em um canto qualquer
Uma música? ... tira o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor!
Põe o seu carro na minha vaga
Que eu não quero voltar não senhor...