se vai me dizer que não me ama mais
espera eu me sentar
se vai me dizer que quer ir embora
espera eu escrever meu número de telefone
num pedaço de papel
se vai me dizer que vai pedir uma pizza
espera eu tomar banho
se vai me dizer que vamos ver um filme
espera eu telefonar para minha mãe
se vai me dizer que esqueceu de pagar a conta de água
espera eu tomar um copo d'água
mas, se não vai me dizer nada,
para de me olhar desse jeito e me deixa
acabar de chegar
estou tão cansada que até piscar me dói
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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Rotina
A gata tem rotina.
A gata tem nome: Dora.
Dora Aventureira.
Por volta das seis horas da manhã mia para entrar e dormir quinze minutos aos meus pés.
Quando precisei acordar as 5h30, não sei como, as 4h20 ela já estava em seu ritual de "querer entrar".
A gata, depois que levanta dos meus pés, quer comida.
O pote pode até estar abastecido, mas ela só come a ração que se põe enquanto ela observa.
Fresquinha. A comida, posta assim, fica sempre mais fresquinha.
O pote fica sobre um balcão.
Era uma precaução de quando tínhamos o cão que adorava a ração dela.
Pois ela prefere ser alçada até lá...
A gata tem bons hábitos como beber água. Diferente de mim.
Mas a gata só bebe água corrente e por isso espera que alguém abra a torneira do lavabo do corredor.
Às vezes espera no banco em frente, às vezes mesmo na pia onde nem a vemos pela iluminação.
Mas a gata mia.
A gata mia um miado manhoso.
Depois de tudo, até mesmo de usar a caixinha de areia, a gata vai passear.
Inspeciona o quintal.
Vaso por vaso vai experimentar. Arranha, deita, se estica.
Escolhe um canto e espia o portão.
Depois pula o muro e então não sabemos mais como a rotina segue.
Quando volta, a gata mia no alto do muro.
Alguém tem que pegar.
Alguém não, um adulto, porque é alto e... ela mia até o chefe da família a salvar.
No corredor entre a sala e a cozinha se esparrama como a rama se esparrama pelo chão.
Descansando.
A gata deve ir longe, de telhado em telhado, de muro em muro e volta dona de si.
A gata tem rotina.
Tem brinquedos divertidos.
E um rato peludo destroçado preferido.
A gata adora uma sacola.
A gata adora deitar no teclado do computador.
A gata gosta de se ajeitar em nosso colo sozinha, não precisa ajudar.
A gata mia quando a poltrona que gosta está ocupada com livros, brinquedos, uma bagunça de lar.
A gata tem nome.
A Dora explora a nossa vida e sempre nos faz abrir um sorriso com o seu rebolar.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Seguranças
Os ternos são mal cortados.
Os cabelos são mal cortados.
Os olhos maus não revelam a verdade.
São assim os guardas que guardam não sei o quê, na rua onde passo de manhã, a caminho do trabalho.
Mas se os ternos são mal cortados, a postura de quem está de bem com a vida é incrível.
Estou aqui trabalhando.
Estou aqui cuidando do que não é meu, mas quando vou para casa, posso ficar de chinelo e bermuda, posso tomar uma cerveja na calçada com os carnês das prestrações em dia.
Estou aqui e posso te impedir de estacionar o carro.
Estou aqui e posso te dizer onde fica a rua...
Estou aqui e adoraria que, pelo menos uma vez, me dissesse bom dia.
São assim os guardas que guardam aquela casa.
Importantes em suas funções.
Felizes porque tem para onde ir quando acordam.
Nem imaginam que monitoro seus costumes mal ajambrados e seus cabelos mal cortados, mas que vejo poesia naquele bate-papo casual com o aposentado que passeia com o labrador.
O que será de cada um deles quando essa rotina desaparecer? A rotina das vidas que cruzo me ensina que há história em cada detalhe, eu só quero olhar!
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Coisas de todo dia
Quase todo dia eu vejo a vovó japonesa passear com a netinha em seu carrinho de bebê.
Hoje vi os pezinhos gordos, descalços, balançando sossegadamente e o cabelo negro preso com charme.
Quando chego ao trabalho o primeiro sorriso que recebo é do moço da limpeza. Um sorriso descompromissado, iluminado.
E os cães passeiam pelo bairro levando seus donos no outro lado da coleira.
No prédio, o mais simples da rua, no mesmo apartamento, uma janela exibe uma bandeira do Corinthians e a outra exibe uma bandeira do Palmeiras. Fico pensando que ali convivem duas pessoas que se gostam muito a ponto de suportar absurda diferença.
Na janela de outro apartamento um gato que não torce para time nenhum toma sol, no vão entre a vidraça e a tela protetora.
O frentista toma sol.
O segurança da escola de inglês espreita a rua.
Quase todo dia eu vejo toda essa gente que não me vê.
Passo apressada, atrasada para a reunião.
Passo cantando, acompanhando uma música no rádio que sempre me surpreende com uma canção esquecida.
Passo olhando os buracos da rua, o farol da esquina, o ponteiro do combustível.
Eu passo e eles não me vêem.
Eles passam e eu espero que tenham um destino certo, uma existência leve e que me deixem desfrutar da poesia escondida em suas rotinas.
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