Ontem foi aniversário de São Paulo. Muita gente homenageou.
Li em algum lugar que é a cidade que os brasileiros amam odiar ou algo assim.
Eu digo há muito tempo que é a cidade feia mais linda do mundo.
A cidade de São Paulo recebeu, aceitou, confortou todas as personas que me habitaram.
Quando cheguei, a caipira que era e ainda sou, não se assombrou com os edifícios altos, mas ressentiu-se de encontrar céu tão cinza e entristecido.
Essa persona tinha 17 anos e só enxergava uma vida de coreografias, palcos iluminados, sapatilhas e máscaras que mais revelam que escondem.
Quando essa persona realizou que as luzes não brilhariam como tinha sonhado e buscou outros sonhos, São Paulo entendeu. No fundo, no fundo, magoou-se muito com a troca por Recife, mas nunca, jamais, negou seu abraço de volta e compreendeu que minhas personas podiam ir sem amarras nem rancores que voltariam sem explicação, sem necessidade de pedir perdão.
A persona que amadureceu. A persona que encontrou seu grande amor. A persona que acomodou em sua rotina o mundo business. A persona que gerou meninas em séculos diferentes.
São Paulo confortou cada uma delas.
Protegeu em suas garras.
Protestou silenciosamente durante declarações de amor que minha persona viajante já fizera à Nova York, Barcelona.
Eu não nasci aqui, eu não cresci aqui, eu não moro aqui, mas é aqui que eu sou e nos entendemos bem assim!
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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 27 de maio de 2009
É feio se assim lhe parece
O conceito de estética, de bonito e feio já foi tantas vezes discutido, tantas teses defendidas, tantos estudiosos, doutores que não me atrevo a racionalizar. Mas eu vejo o feio bonito da cidade de São Paulo e não é a primeira vez que falo sobre isso. Mas hoje descobri mais um detalhe.São Paulo amanheceu com chuva.
Cinza sem contornos que deixa tudo sem relevo, ausência completa da sensação 3D. A Marginal Pinheiros é feia. Os carros em velocidade quase zero, primeira, segunda me deixam perceber o celta da nova skin, a kombi da granero. O vectra de Serra Negra leva no banco traseiro um menino tão bonito! Uns 5, 6 anos. Nariz empinado que tantos querem copiar em salas brancas de mesas assustadoras.
Mas a minha descoberta está no céu.
Nos postes que tiram a harmonia do Projeto Pomar, encarcerado por blocos de concreto.
Lá no alto, poste sim, poste não, estão os urubus.
Os urubus são feios. São feios mas são elegantes e hoje exibiram-se para mim em uma coreografia que eu poderia ter preparado.
No alto do poste, asas abertas, bico recurvo, encarando a lentidão abaixo.
Vôos coordenados. Pouso suave. Um bater de asas em camara lenta e em sequência, poste sim, poste não um a um e de repente um agrupamento de 3.
Enquanto conduzi meu carro dançaram para alegrar a minha manhã de compromisso perdido, rapidamente reagendado pelo celular.
Dançaram para me dizer que só é feio o que lhe parece feio. Eles estavam especialmente lindos, hoje, no meio da semana!
terça-feira, 7 de abril de 2009
São Paulo
São Paulo é a cidade feia mais linda do mundo.Seus viadutos pulam sobre nós como sapos gordos perdidos de suas lagoas.
As entradas e saídas das marginais parecem o cristal que orienta nosso labirinto. E nos perdemos em rodopios de curvas sem inclinação correta.
Os altos prédios espelhados refletem as favelas.
Tiraram a fileira de barracos que ficava na calçada da favela do Jardim Edith, mas cercaram e pronto, lá estava um condomínio fechado. Agora tiraram de novo. Debaixo da ponte estaiada. Suspensa por cabos mais parece aquela madeira cheia de preguinhos que na aula de artes me obrigavam a desenhar com linhas coloridas.
Que arte? A ponte sim, a minha madeira estampando o sol quase uma punição!
Parques e ruas floridas escondidas em jardins que lembram a Europa.
Fontes iluminadas de uma água que falta onde sobra esperança de que tudo vai melhorar.
Sim. É linda essa cidade feia. Que me desacelera enquanto dirijo no ritmo do trem.
Paralelo marginal.
Que suspende o museu. Que vasculha a terra e desaba túneis.
Que deixa seus vira-latas mortos no Projeto Pomar.
Que derruba árvores e cresce casas. Que derruba favela e pinta de azul os prédios que brotam no lugar.
Pixados no dia seguinte.
Que cria guetos. Que floresce a Augusta depois de tantos anos.
Que estica e encolhe a Paulista dos cinemas que vão e que vem.
São Paulo é a cidade feia mais linda do mundo e com o filme do Mogli aprendi:
você pode tirar o menino da floresta, mas não a floresta do menino.
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