Apanhou uma rosa, machucou a mão.
A mãe sempre dizia para não apanhar as flores.
Mas a rosa estava tão linda e fresca naquela manhã de sol insinuante depois de noite chuvosa que não resistiu.
A mãe já não estava mais.
Caminhou apressado para não perder o sinal verde e atravessar em segurança.
Tinha mesmo era vontade de se sentar em um banco de praça e olhar os pombos.
O pai implicava com os pombos.
Lembrou-se de uma casa em que morou e que uns pombos vieram se alojar no alpendre.
Uma confusão!
O dia estava tão lindo.
Um pecado alguém ter que se enfiar em um escritório em dia tão lindo!
Quem será que definia quem nasceria em cidade grande, pequena, em cidade de praia, em cidade de montanha?
Deus, destino, acaso?
O acaso era o mais poderoso senhor do tempo.
Estava sorrindo com seus pensamentos quando a senhorinha que também esperava para atravessar a rua elogiou a rosa.
Despertou.
- Então é toda sua, ela estava mesmo à procura de outra flor!
A senhorinha, cabelo quase azul, tentou recusar mas não resistiu.
Ele ficou tão vermelho que atravessou a rua quase correndo e quase sem ouvir o singelo agradecimento.
Ele não saberia mesmo o que fazer com uma rosa em escritório tão frio e inóspito.
Ficou pensando se aquilo que dissera poderia ser considerado poesia, depois não se importou mais com isso e apenas se desculpou com a mãe lá no céu:
- Viu Dona Eulália? Foi por uma boa ação!
E seguiu seu destino de adulto sozinho em cidade grande.
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quinta-feira, 25 de agosto de 2011
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
E assim foi
Ele era alegre, mas de vez em quando ficava triste. Isso é normal. Acontece com todo mundo.
Ele não gostava muito do nome dele, mas também isso não era importante. Ele tinha muitos apelidos.
Na escola um, em casa outro, no trabalho um terceiro. Ele se divertia e estranhava quando, na sala do médico, alguém o chamava pelo nome.
Tinha também um sobrenome.
Tinha visto num filme ou lido em algum livro um personagem que dizia que era melhor ter um nome comum. Para os que têm nome comum nunca há muita expectativa e por isso vivem melhor, mais para si.
Mesmo alegre ele foi ficando cada vez mais triste. Já não parecia tão normal, mas não sabia se acontecia com todo mundo ou só com ele. Não queria perguntar. Não tinha com quem conversar sobre isso.
Algumas pessoas observaram, algumas fizeram uma graça ou outra com esse estado de espírito, mas depois o deixaram em paz.
Ele já não tinha ânimo para o trabalho, mas não deixava de cumprir todos os compromissos.
Já não tinha mais vontade de ir ao jogo de futebol. Ficava trabalhando até mais tarde e depois escorregava para casa, torcendo para não ser visto pelos amigos.
Já não se ocupava em programar o final de semana. Preferia ver um pouco de TV, ficar quieto no quarto e só.
A mãe também não se importou.
Ela também tinha um nome bem comum.
Ele foi ficando cada vez mais triste. Um aperto no peito. Comprou uma camisa. Não melhorou.
Foi ao cinema. Filme bom, mas...
Folheou umas revistas. Deitou e não conseguiu dormir.
As costas reclamaram de tanto descanso. Pensou nos comprimidos que a mãe tomava para dormir.
Resolveu tomar um.
Demorou pra fazer efeito, tomou mais um, e outro e mais outro, tomou quase o vidro todo.
Deitou e dormiu para sempre.
Foi assim que ele morreu, o Adamastor.
De uma tristeza que não se identificou.
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