e se eu te disser uma palavra dura
saiba que ela não dura mais que alguns segundos
que depois ela me castiga a alma
mais do que qualquer olhar frio e gesto contido
e se eu te disser que uma palavra cura
pode acreditar porque tenho cicatrizes que posso mostrar
mas se eu ficar em silêncio
quando o silêncio pode ser devastador
então se afasta porque não tem amargura maior
que o abandono das palavras em noite escura
se eu te disser palavra dura
saiba que em mim não cura
a tristeza do teu olhar
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segunda-feira, 29 de agosto de 2011
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Desencanto
Estava tão triste que não conseguia disfarçar.
Procurou contar algumas coisas engraçadas, mas ficaram tão sem graça!
Resolveu procurar um poema lindo e disfarçar tristeza de emoção.
Um poema curto, profundo como o corte na alma.
Lembrou que a alma é que tem o corpo, um corpo perecível para uma alma perene que pode habitar outro corpo em outro lugar.
Se tudo fosse assim tão simples, não teria tristeza capaz de embaçar a luz do dia.
Sorte ele já estar nublado.
Voltou aos poemas.
Lembrou de Florbela Espanca.
Preferiu ficar longe da longínqua semelhança.
Foi ali mesmo, praticamente no meio do mato, resgatar Manoel (de Barros)
...
“que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.
Ou pelo desencanto, pôde supor!
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Luta
E quando quero estar feliz, mas uma tristeza me invade, ocupa cada espaço desprevenido e não vai embora?
Fico atônita.
Penso em rabiscar um verso.
Depois quero ler um livro e quando já estou em casa isso é tão fácil.
Mas essa tristeza não escolhe lugar.
Estou entre amigos escolhendo o que comer no almoço e de repente, ela me agarra um pé.
Em outras, em uma loja nova, cercada de estímulos por todos os lados e de um corredor a outro, um vão de espelho me assusta e quem vejo? Eu? Não. A tristeza escondida em meus olhos, fazendo tudo para se mostrar.
E quando quero gritar que não posso mais carregá-la comigo e os sons todos se tornam muito mais alto que minha voz muda?
Quero ouvir uma música. Uma música qualquer. Quero cantar uma música.
Quero rezar uma reza, resgatar uma foto engraçada, chamar uma amiga pelo celular.
E nada faz passar.
A tristeza é cíclica? Ela vem e vai? Não fica lá nem cá para sempre?
E quando quero estar feliz, mas um suspiro profundo vem me dizer que apenas espere, que não faça força, que a quietude ajuda, que a serenidade repousa em algum canto do meu coração, mas que já já vem me acudir?
E quando fico atônita e penso em rabiscar um verso, mas a tristeza não deixa?
Apenas consulto o relógio e espero, um dia vai coincidir.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Novembros
Os novembros vão e vêm.
Uma de minhas amigas de adolescência, a Fátima, faz aniversário no dia 24.
Eu não a vejo há muitos novembros e tenho muita saudade.
Alguns novembros são de alegria, outros nem tanto.
Eu tenho pena dos meses de novembro.
Eles vivem entre a alegria do outubro, mês do dia de Nossa Senhora da Aparecida para os católicos, do dia das crianças, do dia dos professores e a euforia do mês de dezembro que dispensa apresentações: festas, presentes, alegria e esperança.
Os meses de novembro carregam o ônus da tristeza pelo dia dos mortos - aqui no Brasil - e de tempos em tempos pela dureza das eleições.
Vozes ásperas.
Os novembros vêm e vão. Como os cavalinhos do carrossel que não tem outra opção a não ser resignarem-se aos seus destinos certos, circulares.
Novembro tem trinta dias. Ele pensava ser mais feliz.
Em novembro aconteceu o episódio conhecido por Massacre de Jonestown, induzido por “Jim” Jones.
Em novembro morreu Zumbi dos Palmares, aos 40 anos.
Em novembro a cadela Laika entrou em órbita, lançada junto com o satélite Sputnik 2.
Laika não era seu nome e sim sua raça, ela se chamava Kudryavca e morreu horas após o lançamento devido ao estresse e ao superaquecimento do corpo.
Triste, muito triste.
É certo que coisas muito alegres acontecem, e dias interessantes, dia do designer, dia do músico, mas sempre entre coisas sofridas.
Os novembros vão e vêm e assim como as águas do mar eu respeito temerosa e o atravesso em equilíbrio.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
E assim foi
Ele era alegre, mas de vez em quando ficava triste. Isso é normal. Acontece com todo mundo.
Ele não gostava muito do nome dele, mas também isso não era importante. Ele tinha muitos apelidos.
Na escola um, em casa outro, no trabalho um terceiro. Ele se divertia e estranhava quando, na sala do médico, alguém o chamava pelo nome.
Tinha também um sobrenome.
Tinha visto num filme ou lido em algum livro um personagem que dizia que era melhor ter um nome comum. Para os que têm nome comum nunca há muita expectativa e por isso vivem melhor, mais para si.
Mesmo alegre ele foi ficando cada vez mais triste. Já não parecia tão normal, mas não sabia se acontecia com todo mundo ou só com ele. Não queria perguntar. Não tinha com quem conversar sobre isso.
Algumas pessoas observaram, algumas fizeram uma graça ou outra com esse estado de espírito, mas depois o deixaram em paz.
Ele já não tinha ânimo para o trabalho, mas não deixava de cumprir todos os compromissos.
Já não tinha mais vontade de ir ao jogo de futebol. Ficava trabalhando até mais tarde e depois escorregava para casa, torcendo para não ser visto pelos amigos.
Já não se ocupava em programar o final de semana. Preferia ver um pouco de TV, ficar quieto no quarto e só.
A mãe também não se importou.
Ela também tinha um nome bem comum.
Ele foi ficando cada vez mais triste. Um aperto no peito. Comprou uma camisa. Não melhorou.
Foi ao cinema. Filme bom, mas...
Folheou umas revistas. Deitou e não conseguiu dormir.
As costas reclamaram de tanto descanso. Pensou nos comprimidos que a mãe tomava para dormir.
Resolveu tomar um.
Demorou pra fazer efeito, tomou mais um, e outro e mais outro, tomou quase o vidro todo.
Deitou e dormiu para sempre.
Foi assim que ele morreu, o Adamastor.
De uma tristeza que não se identificou.
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