quarta-feira, 4 de maio de 2011

Eu a conheci

Embarcou.
Não tinha outra coisa a fazer.
Nenhum passado e nenhum futuro, só um presente sem graça.
Aprendeu mais tarde que fé é diferente de esperança.
Explicaram que esperança é uma espécie de expectativa... De acho que vai acontecer, de quero que aconteça, mas que um certo medo já prepara para o não deu certo.
Fé não. Fé é sem medo.
Fé é certeza absoluta e mesmo quando a coisa não dá a pessoa ainda fica achando que não é definitivo e que ainda pode acontecer.
A viagem durou tanto tempo que foi capaz de achar uma explicação para “a fé move montanhas”.
Move nada. A pessoa é que caminha até a montanha porque tem tanta certeza de que vai chegar lá que caminha sem perceber e daí fica achando que a montanha se moveu.
Mas não deu tempo de encontrar uma explicação para quando se usa isso para dizer que uma montanha igual à coisa ruim saiu da frente.
Se eu pudesse ajudar diria que o raciocínio é o mesmo, só que a pessoa vai em direção contrária à montanha e assim parece que ela saiu da frente.
Simples assim.
Não, não é simples não é?
Mas ela embarcou longe de mim, desceu mais longe ainda e seguiu sem caminho entre crente e descrente.
Entre alegria e tristeza.
Entre amores e desamores.
Como toda gente.
Só que uns disfarçam melhor do que outros.
Ela não tem outra coisa a fazer, a não ser lidar com um presente sem graça.
Por isso não vou embarcar.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Ônibus e agora?

Recentemente andei de metro.
E narrei toda a epopéia. Divertido.
Mas ônibus é outra coisa.
E não cabe aqui nenhuma avaliação política de nossa situação de transporte público, eu poderia falar sobre isso, mas tenho preguiça.
Tenho preguiça, mas lamento a sorte de quem não pode se divertir com histórias que acontecem nos ônibus porque elas acontecem todos os dias e é uma dura rotina.
Uma me conta que quase caiu, bateu a perna no braço do banco e a bolsa na cabeça de um coitado.
A outra que não tinha dinheiro para pagar a passagem e foi salva pela boa alma sentada a seu lado.
A terceira, mais exagerada, além de cair mais de uma vez, chegou a desmaiar!  
Penso que não ando de ônibus desde que entrávamos pela porta de trás e descíamos pela porta da frente.
Agora é o contrário. Faz tanto tempo que a mais nova diz não se lembrar.
É para rir, não para fazer contas.
E então me lembro das minhas histórias de ônibus. Não de todas, mas as mais emblemáticas servem para alegrar um almoço.
Linha Sacomã-Paulista. Estou sentada na janela, ao lado de um rapaz, nenhum lugar vago.
Entra outro rapaz, não muito mais velho do que está sentado ao meu lado, mas com o braço direito engessado. Daquele gesso que deixa só as pontas dos dedos espiarem e que machuca embaixo do braço de gesso tão engessado que é.
Esperei um pouco, como ninguém se mexeu, cedi meu lugar a ele.
Quando desceu, um ponto antes de mim, ele agradeceu mais uma vez pelo lugar e deu com o cotovelo engessado na cabeça do rapaz dizendo que ele era mal educado e deixara uma mulher em pé!
Pois é. Ninguém falou nada. Cada um seguiu o seu caminho. Nunca mais encontrei nem um, nem outro, apesar de fazer sempre o mesmo trajeto, no mesmo horário.
É só uma história que tenho pra contar, do tempo em que usava cabelos longos e enrolados, uma bolsa com tudo o que eu tinha e um futuro que teimava em não chegar.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Recuperando o rebanho

Não esperava perder para mim depois de tanto tempo.
E porque não esperava não estava preparada e espantei-me.
Demorei mais do que deveria, gostaria e mais uma porção de ria como se diria no interior, mas me recuperei.
Estou me recuperando.
Não posso perder para mim mesma.
Não posso deixar que a tristeza de um dia dure uma semana.
Que o fato de não gostar do prato me faça abandonar o restaurante.
Que o fato de não ter o meu número me faça deixar para sempre a loja de sapatos preferida.
Não posso perder assim, por tão pouco.
...escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã... já cantava Renato Russo
E eu também já.
Já vivi dias ruins.
Já nem me lembro deles e por isso dou graças.
É uma graça rir da desgraça, não por desespero, apenas por entender que isso não é a vida, é só uma situação de vida, que já vai passar.
Não posso perder para mim porque de mim já sei muito para isso, e mesmo assim todo dia tem alguma coisa nova para aprender.
Eu deveria ter me esforçado um pouco mais e feito o post da última sexta-feira em que fiquei tão cansada que o dia tão útil tornou-se inútil e abandonei palavras sem par.
Recuperando o rebanho.