terça-feira, 31 de agosto de 2010

Acho que vou matar o Papai Noel


- Mãe, já sei o que vou pedir de Natal para o Papai Noel...
- Ah já? E o que é?
- Um Pain de pelúcia?
- Hum... mas pelúcia, você tem tantas, nós combinamos que...
- Eu sei mãe, pra ganhar uma pelúcia eu tenho que doar outras pelúcias e a gente pode fazer isso já no dia das crianças que é antes do Pain chegar
- Eu nunca vi nas lojas
- Mas não é de comprar, é de pedir pro Papai Noel
- Eu sei, mas é mais fácil pedir coisas que tem nas lojas porque senão o Papai Noel não dá conta de tanta encomenda
- Mas tem sim, tem no Japão, eu vi na Internet
- No Japão?

A conversa já não estava indo numa boa direção e ainda ganhou reforço da irmã:

- Não seja ingênua mãe, Papai Noel dá presentes por território, você pede e pronto!
- Não é bem assim não, e já expliquei que não é do nada que Papai Noel dá presente, os pais têm que pagar uma taxa, se não fosse assim, todas as crianças ganhariam presentes...
- Relaxa, até lá ela já mudou de idéia, não lembra que você já comprou coisas antecipadas no aniversário, no dia das crianças e na hora ela pediu outra coisa?
- E quem é esse Pain?
- É um vilão do Naruto
- Acho que Papai Noel não dá vilão não, é uma época de paz...
- É um brinquedo mãe, e ele não dá soldadinho e revolver de plástico?
- Acho que não dá mais não...
- Bom, eu já escrevi a carta e pronto!

Não sei não, tenho lido tanta coisa sobre os perigos da obesidade abdominal nos homens, Papai Noel tem isso, é obeso, tem certa idade e trabalha muito... Acho que vou matar o Papai Noel. Eu poderia explicar... Assim como o espanhol se foi, lembra dele, o seu hamster? O Papai Noel... Claro que para as crianças bem pequenininhas ninguém vai contar ainda, ele pode viver para sempre como o Saci Pererê, a Mula Sem Cabeça, mas agora os presentes virão da mamãe do papai...
Eu vou ver se conheço alguém que vai ao Japão ou se alguma loja de lá tem entregas aqui no Brasil!
Será?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Campainha

Quando a campainha toca, chega alguma coisa.

Uma senhora de cabelo e vestido longos apresentando sua fé.
Um verdureiro apresentando suas alfaces frescas e sem agrotóxico.
Um amolador de facas.
Um menino vendendo rifa para a escola.
E, às vezes, uma história mais comprida.
- Moro do outro lado do bairro, tenho família, não passo necessidade, mas agora vivo uma situação mais delicada. Meu filho, adolescente, menino bom, estudioso, mas menino... veio descendo a rua do posto com a bicicleta... Sempre falei pra não fazer isso, que era muito perigoso, mas menino não escuta mãe, não é? Pois não é que caiu com a bicicleta moço? Um tombo feio, muito feio, bateu com o rosto no chão, perdeu a visão. Agora to juntando dinheiro pra fazer uma cirurgia lá em São Paulo que dizem que dá pra recuperar quase tudo. O governo não paga. Nossas economias não chegam. Então eu vou de casa em casa contando a história e arrecadando. Já temos quase tudo. Era vinte e dois mil, depois fizeram um desconto, caiu um pouco e agora já estamos quase lá. Faz meses que ele está em casa, esperando, não pode ir à escola, não pode fazer nada... E eu sou mãe, eu to tentando de tudo!
Uma mulher que recolhe garrafas e papelão para vender na reciclagem.
Um menino que entrega um folheto de supermercado.
Um homem que vende redes vindas diretamente da Bahia.
Uma menina que vende panos de prato bordados pela avó.
E, às vezes, uma história mais comprida.
- Pelo amor de deus, se eu estiver incomodando nem precisa me atender, eu to numa situação difícil, mas não sei da situação da senhora. Eu nem queria estar pedindo, mas já comecei a vender coisas em casa para ter o que comer. Vendi uma televisão, até um botijão de gás eu vendi esses dias. Sou formado ferramenteiro pelo SENAI, trabalhei dezoito anos com carteira assinada, mas quando sofri o acidente já estava há dois anos desempregado e o governo então não quer me aposentar por invalidez porque diz que não tenho direito. Ainda estou brigando na justiça, não me conformo, e os dezoito anos que trabalhei e contribui, não servem pra nada? Eu tenho cinquenta e dois anos, mas casei tarde, com quarenta e um e por isso tenho filhos pequenos, um de dez anos e um que vai fazer quatro por esses dias. Eu aceito qualquer coisa, só pra me aguentar enquanto não resolvo minha aposentadoria. Até pode ser algum alimento, mas é difícil carregar...
Usava muletas e não tinha parte da perna direita.
Debaixo de um sol de meio dia a pele morena e os olhos de um azul quase inútil.
Levou uns trocados e um boné.
Quando vivemos protegidos pelas guaritas e portarias de nossos condomínios sabemos menos da vida.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Reflexão


Para que tantos sapatos se a graça era mesmo ficar descalço e pisar a grama, a areia grossa, a terra molhada?

E um armário entupido de roupas se confortável mesmo era andar em mangas de camisa, uma bermuda feita de uma calça velha cortada na altura dos joelhos?
E para que manter tantas cartas amareladas naquela caixa florida, já desbotada, de vez em quando espanada da poeira inevitável?
Esse tempo já passara.
Não deixou nenhuma cicatriz, nenhuma dor de chorar, mas também nenhuma medalha, nem um ato de heroísmo para contar.
Andou para cá e para lá.
Viajou.
Conheceu pessoas.
Esteve em festas.
Deu festas.
Aparece em uma série de fotografias guardadas em casas fechadas, de histórias veladas.
E ele mesmo coleciona uma série de fotos e em muitas delas sorrisos de pessoas que já não se lembra quem eram, quem são e mesmo assim, as conserva.
Para que tantos discos, CDs, se a graça mesmo é ser surpreendido pela música que toca no rádio. Estilos misturados, cantores consagrados, cantores que recém surgiram na internet. Entre músicas de antigamente e músicas de amanhã a publicidade engraçada de serviços do interior.
Para que uma dúzia de ovos?
Para que uma melancia inteira?
Modernos supermercados que pensam nos que vivem alone, como é chic dizer.
Para que tanta pressa de chegar ao futuro se ele é agora e é assim?
Cheio de coisas que se pode comprar, pagar, ter, colecionar, trocar, mostrar e tão vazia de alguém pra simplesmente abraçar, conversar, rir ou apenas ficar calado olhando o sol se por.