quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Um homem feliz

Do que mais gostava era de ser deixado em paz.
Em sua cadeira, na varanda, com um vento fresco batendo no verão.
Em um canto do sofá da sala, quando o vento esfriava anunciando o inverno.
E, sem sair do lugar, viajava mundo pensando em lugares.
Pensando nas pedras do Algarve.
Lembrava sempre e ainda achava graça do amigo português que, surpreendido com a notícia de que ele embarcaria para Portugal perguntou assustado:
- Portugal? O que vai fazer lá? Lá só tem pedra...
Achou que o amigo ficaria orgulhoso de visitas em seu país natal.
É, nunca se sabe tudo sobre as pessoas.
E do que mais gostava, quando estava entregue as suas lembranças, eram os cheiros que lhe chegavam, frescos como da primeira vez.
O perfume suave da professora de catecismo.
O perfume do refogado do arroz fritando na panela.
O perfume da dama-da-noite plantada na calçada.
Tudo o que tinha vivido tinha servido para lhe deixar descansar em paz.
Do que mais gostava era ver crescer os netos cheios de alegria.
As meninas sempre aprendendo mais depressa do que os meninos.
As noras tão jovens e tão bonitas.
Os filhos tão respeitáveis em seus carros novos.
A televisão que preferia desligada tão moderna em sua finura de botões escondidos no controle que sim, queria remoto.
Ver a vida era apenas olhar para dentro de si e ao redor, sem precisar ir muito longe.
Do que mais gostava era de ser deixado em paz para saborear as escolhas certas que tinha feito na vida.
Só o que não previra era que Madalena se fosse tão antes dele, antes mesmo do segundo neto nascer, e isso era uma mágoa que tinha com a vida e sabia, que em algum momento, iriam ajustar essa conta.
A única que lhe ficara pendente.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Nem sempre poesia

Não quero o ônus de dizer sim
Não quero o medo de dizer não
Entre tantas coisas que são ditas,
As que ficam entre as entrelinhas     
Exasperam de menos
Desesperam de mais
Não quero o medo do dedo em riste
Não quero uma aventura sem limite
Ônus de dizer sim
Bônus de ficar sem saber
O tempo que corre
Escorre pelos dedos magros
Os olhos perdem o brilho
O sorriso perde o encanto
Que medo da vida que vem
Que alívio da história que se constrói
A olhos nus crescem
A olhos nus emudecem os pedidos
De dia das crianças
De Natal, de Páscoa
E que desespero se noite dessas
Eu encontrar a fada do dente
Sentada em um canto com um resto
De presente
Não quero o ônus de dizer sim
Quando o coração diz que não
Não quero o bônus de uma vida inteira
Por uma metade que deixei de cumprir
Há um conta gotas que me conta
Em um canto qualquer
Uma música? ... tira o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor!
Põe o seu carro na minha vaga
Que eu não quero voltar não senhor...

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O óbvio...

Seguimos reclamando do óbvio: uma hora de trânsito!
Claro, mas queria o quê? Mora em uma cidade caótica como São Paulo, mora em um bairro e trabalha em outro...
Joga um papel de bala no chão (ah, tão pequeno, não tem lixo, não tenho bolsa), mas reclama das enchentes depois de uma chuvinha de nada.
Ah, seguimos reclamando do barulho. Mas atendemos ao telefone no elevador e todos ficam sabendo que o encanador não foi.
E reclamamos do encanador.
Se está sol, o calor é de matar.
Se está chovendo, é um problema caminhar, tropeçar nas calçadas esburacadas, sujas, com poças d´água.
E como chamamos o santo nome em vão!
Meu Deus, Minha Nossa Senhora, Jesus Maria José.
Minha Santa Madalena.
Nossa Senhora da Bicicletinha.
Seguimos reclamando do óbvio: uma fila no supermercado! Uma caixa lerda!
Enquanto espremo as mãos de ansiedade com o tempo a caixa comenta com a cliente da frente que queria ser cantora.
É o que basta para me distrair da minha pressa.
Ela não estava reclamando. Era apenas um lamento suave de algo que poderia ter sido e não foi.
Quero ouvi-la cantar, mas não ouso pedir.
Ela se despede da cliente, olha para mim sorridente e não tenta fazer nada ligeiro.
Ela queria apenas ser cantora, mas passa meus produtos por aquela maquininha que engole os números, ajeita sacolas, papéis e o cabelo que escapa do coque.
Seguimos reclamando do óbvio porque nos concentramos no excesso.
Pudesse agora trocar o sapato pela relva fresca molhada de chuva e olhar para o céu apenas para desenhar uma nuvem tudo seria diferente.
E não é apenas porque não tenho coragem de parar de reclamar do óbvio!
Às vezes me canso de correr atrás de mim.