quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Mandriar

Não tenho mais moeda de troca com o tempo
Ele tolera minhas preguiças, ele me espreita na esquina
E não se importa com meu passo mais lento
Porque não tenho mais moeda de troca não consigo
Ensaiar uma coreografia de madrugada, em um
Teatro emprestado, e no dia seguinte seguir sorridente
Hoje coreografo apenas palavras
Procuro par para cada uma delas
Não gosto de palavras vazias
Não gosto de palavras sozinhas
Nem daquelas que se valem das reticências porque não tem coragem de abrir caminho para a companheira que diria toda a verdade
As palavras doem
Não posso mais mandriar porque não tenho mais moeda de troca
Não tenho mais dezesseis anos e talvez por isso as palavras me
Respeitem mais, me acompanhem com menor pudor
Mas não valem nada para o tempo
Ele é zombeteiro, tolerante apenas porque sabe que vai ganhar

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Constatação

Perpetuamos-nos de várias formas.
Os grandes descobridores sobrevivem hoje e de muitos deles não sei nada mais além de sua brilhante invenção. Se teve pai e mãe presentes em sua infância, se teve irmãos, se teve filhos, nada sei.
Grandes escritores.
Grandes músicos.
Grandes pintores.
Sobre grandes homens que apenas cresceram, amaram os seus, trabalharam, olharam o céu em dias de céu claro ou de céu escuro, nada sei.
Mas nos perpetuamos entre os nossos.
Meu pai foi um desses homens que nada descobriu, que cresceu jogando bola e amou os seus.
Que adorava os dias de céu azul e temia os dias de céu escuro.
Não escreveu nenhum livro, mas nos deixou cadernetas com anotações em sua letra firme: a data do primeiro corte de cabelo do meu irmão, quanto custou abastecer o tanque, quanto devia pagar ao açougue no final do mês, datas de viagem...
Não escreveu nenhuma canção, mas eu ainda respondo o assobio que ele dava ao chegar em casa e anunciar-se.
O que mais me entristece e enternece é ter sabido anos depois que ele confessou à minha mãe que não mais o faria - depois que me mudei para São Paulo - porque eu não estava mais lá para responder.
E mesmo sem canções ou livros meu pai perpetuou-se.
Em mim, nas minhas irmãs e irmão, nas histórias que contamos sobre ele quando nos reunimos, nas histórias que contamos sobre ele para nossos filhos.
Perpetuamos-nos se amamos e não é nenhum consolo, apenas uma constatação!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

No fim dá certo

Não sou delicada com as flores e plantas que cultivo, mas elas entendem a minha boa intenção.
As mãos tateiam, retiram folhas secas, galhos, ajeita terra, às vezes radicaliza e troca uma planta de vaso e elas, elas sim delicadas, agüentam um pouco até que tudo termine. Como as pessoas que vão fazer exame de sangue, uma limpeza dentária agüentam um desconforto momentâneo por uma coisa melhor.
São assim as plantas do meu quintal.
E florescem lindas e vigorosas, cada uma a seu tempo, para meu grande espanto.
Converso com elas coisas à toa, nada de filosofia, apenas vou descrevendo o procedimento para diminuir o estresse.
Tenho violetas que florescem mais de uma vez por ano, há mais de 10 anos.
Tenho uma pitangueira, arbusto frondoso, que nasceu de algumas sementes da fruta saboreada na casa da saudosa Dona Mercedes lá de São José do Rio Preto. Brotou tímida em um vaso no parapeito da janela do apartamento ainda em São Paulo.
Quem te viu e quem te vê! Que ficou assim por minhas mãos é bem difícil de crer!
Não sou delicada, mas a intenção é tão pura que se ajeitam.
Sábado último foi desses dias em que organizando os vasos eu organizo a mente.
Depois de tudo pronto choveu.
Fiquei na varanda olhando o pinheiro liberto de seus ramos secos. O limoeiro em seu vaso novo. Alguns vasos reabastecidos com terra e minhoca.
Dançavam ao vento, recebiam a chuva e olhavam para mim agradecidos por já ter passado o pior momento.
Eu deveria saber ser assim com outras coisas, mas uma coisa de cada vez!