Com meu pai aprendi a gostar de pipoca
a ser honesta
a gostar de futebol
a olhar o relógio e obedecê-lo
cegamente
Com meu pai aprendi a gostar
das estradas e dos mapas
como veias serpenteando um corpo
Com meu pai aprendi a gostar
de música sertaneja
de assoviar
de fazer troças com os medos
da minha mãe
Aprendi a gostar de milho cozido
de sentar à cabeceira da mesa
Aprendi a desconfiar de meio-sorriso
Com meu pai aprendi a vida
e a ver tudo azul
numa tentativa desesperada e
inútil de imitar nos meus,
a cor inconfundível dos seus olhos azuis!
Escrito em 21 de fevereiro de 1999, as 8h14 - seis meses depois de seus olhos terem se fechado para sempre.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Apelidos perdidos
Marcado que era pelo destino resolveu arriscar tudo.
Começou rabiscando um bilhete de despedida.
Teve medo de que fosse confundido com um bilhete de despedida dos suicidas e, por isso, não teve dúvidas, rasgou e rabiscou palavras no espelho, nas paredes, na geladeira, onde foi possível.
E então fotografou como se estivesse em uma dessas instalações modernas, mas no fundo, só queria recordar suas palavras.
Ajeitou tudo o que cabia na mochila.
A única coisa que lhe doeu deixar, do fundo da alma, foi a bicicleta.
Em dado momento pensou que ela poderia ser útil, mas prontamente reconsiderou.
Não podia ter nada que não pudesse carregar ou que não pudesse lhe acompanhar.
Lembrou-se de algumas frases de efeito apenas para se auto estimular. Resumiu em: uma grande caminhada começa com um pequeno passo e então quando fechou a porta tropeçou no degrau.
Teve a impressão de que era um mau agouro e de que o pequeno passo era só um tropeço e que nada daria certo.
Mas era tarde para recuar.
Seguiu firme sem se voltar para olhar.
Marcado que era pelo destino resolveu arriscar tudo.
Em dado momento, o Dado, o Duda, o Edu, o Dudu eram de novo o Luis Eduardo e talvez tudo pudesse ser diferente.
Arriscou.
Começou rabiscando um bilhete de despedida.
Teve medo de que fosse confundido com um bilhete de despedida dos suicidas e, por isso, não teve dúvidas, rasgou e rabiscou palavras no espelho, nas paredes, na geladeira, onde foi possível.
E então fotografou como se estivesse em uma dessas instalações modernas, mas no fundo, só queria recordar suas palavras.
Ajeitou tudo o que cabia na mochila.
A única coisa que lhe doeu deixar, do fundo da alma, foi a bicicleta.
Em dado momento pensou que ela poderia ser útil, mas prontamente reconsiderou.
Não podia ter nada que não pudesse carregar ou que não pudesse lhe acompanhar.
Lembrou-se de algumas frases de efeito apenas para se auto estimular. Resumiu em: uma grande caminhada começa com um pequeno passo e então quando fechou a porta tropeçou no degrau.
Teve a impressão de que era um mau agouro e de que o pequeno passo era só um tropeço e que nada daria certo.
Mas era tarde para recuar.
Seguiu firme sem se voltar para olhar.
Marcado que era pelo destino resolveu arriscar tudo.
Em dado momento, o Dado, o Duda, o Edu, o Dudu eram de novo o Luis Eduardo e talvez tudo pudesse ser diferente.
Arriscou.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Haku
Notícias ruins nos abalam por um tempo, mas depois você segue em frente. Já a esperança é paralisante.
Eu ouvi isso em um seriado de TV que assisto pela internet e fiquei paralisada pensando no que acabara de ouvir.
Se não fosse esse o momento, o contexto, eu talvez não tivesse prestado atenção.
Acontece que passei quarenta anos sem ter um cão e os últimos sete anos fazendo parte de uma "matilha", porque é assim que nos vêem os cães.
Porque nunca antes eu tivera um cão é uma história para ser contada em algum outro momento.
É que nesse momento, tudo gira em torno da matilha que se desfez. Paralisante.
Em um momento estava lá, dormindo coberto com uma camiseta velha em sua caminha nova, vermelha. E no momento seguinte não estava mais.
Cidade algumas vezes visitada, casa frequentada, mas a euforia de um passeio independente o levou para longe, para não sei onde, para sempre?
E então a esperança é paralisante, apesar de nos fazer agir - cartazes, anúncios, carro de som, procura incessante, comunidades virtuais, promessas - nada nos dá a resposta que tanto queremos ouvir: está aqui!
Quando perdemos um bichinho por morte é uma perda com recordações.
Quando perdemos um bichinho assim, é uma dor com suposições.
Haku, dove sta bambino?
Eu ouvi isso em um seriado de TV que assisto pela internet e fiquei paralisada pensando no que acabara de ouvir.
Se não fosse esse o momento, o contexto, eu talvez não tivesse prestado atenção.
Acontece que passei quarenta anos sem ter um cão e os últimos sete anos fazendo parte de uma "matilha", porque é assim que nos vêem os cães.
Porque nunca antes eu tivera um cão é uma história para ser contada em algum outro momento.
É que nesse momento, tudo gira em torno da matilha que se desfez. Paralisante.
Em um momento estava lá, dormindo coberto com uma camiseta velha em sua caminha nova, vermelha. E no momento seguinte não estava mais.
Cidade algumas vezes visitada, casa frequentada, mas a euforia de um passeio independente o levou para longe, para não sei onde, para sempre?
E então a esperança é paralisante, apesar de nos fazer agir - cartazes, anúncios, carro de som, procura incessante, comunidades virtuais, promessas - nada nos dá a resposta que tanto queremos ouvir: está aqui!
Quando perdemos um bichinho por morte é uma perda com recordações.
Quando perdemos um bichinho assim, é uma dor com suposições.
Haku, dove sta bambino?
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