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sexta-feira, 2 de março de 2012

Desencanto

Inventou para si um passado tão cheio de detalhes que fechando os olhos quase pode reviver histórias que nunca aconteceram.
Adormece as vontades e em seu passado recriado foi cantora, conheceu pessoas e lugares sem nunca sair de seu quintal. 
Vive presa em seu presente miserável e sabe que terá que reinventar esses dias sem graça, mas não consegue se libertar.
Não consegue criar um futuro de presente e acredita piamente que vive o roteiro que o destino lhe escreveu.
Uma pena.


sexta-feira, 13 de maio de 2011

Expectativa

Vejo o outro lado do abismo, mas não sei como chegar lá.
Enxergo um caminho sem fim, mas não sei como alcançar o primeiro passo.
Uma estrada reta, sem setas. Gosto de olhar para as pedrinhas do chão.
Gosto de olhar para as árvores enormes, mas gosto também de olhar os matinhos que crescem rasteiros na beira da estrada.
E esse buraco no meio que não dá nenhum sinal de como poderia ser ultrapassado.
Vejo o outro lado do abismo. De fundo escuro, parecendo infinito, talvez com um marulhar de água que escorre.
De água que me ignora, que não tem a pretensão de matar a minha sede, tão pouco de me afogar.
Vejo a estrada reta, sei aonde ela vai dar.
É um tempo presente, mas sei que o futuro que me espreita pode não me alcançar.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Foto Reflexão


Deixamos para trás um rasto.
Um rastro.
Um rastilho.
De histórias com finais felizes, outras inacabadas, outras com finais que pediríamos a um gênio que nos deixasse alterar.
Caminhamos em direção a um horizonte.
Fonte de outros tantos rastos, quando alcançado.
Se quando caminhamos o que miramos é apenas o reflexo daquilo que queremos conquistar, é nossa a decisão de continuar ou de parar.
Mas não há descanso, só descaso.
Ir e vir pode não levar a nenhum lugar.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Encontro

Poderia se chamar Maria.
Ou Clara.
Ou Ana.
Ou Lia.
Nomes singelos.
Nomes bonitos.
Nomes femininos.
Com aqueles olhos claros
Poderia olhar o futuro sem medo
Se olha, não sei dizer.
Com aqueles cabelos tão louros e
Tão ajeitados sem esforço
Poderia descansar no alpendre
Se descansa, não sei.
Traços delicados, jeito tão sereno
Que nos faz ter certeza
Sem ter certeza alguma
Sorriso fácil sem exageros
Nada nela é excesso
O vestido na medida certa
A estampa na medida certa
Poderia se chamar Maria.
Ou Clara.
Ou Ana.
Ou Lia.
Mas tem outro nome que não
Atrevo-me a registrar porque não
Certifiquei-me da grafia.
Talvez nem ela nem eu façamos ideia 
do que o nosso encontro
pode significar, mas eu espero revê-la
E um dia poder essa história recontar.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Os meus e os nossos bebês


Isadora
Marina
Julia
Taís
Gustavo
Vittoria
Maria Eduarda
Felipe
Theo
Eduarda?
Nomes de bebês que me cercam.
Alguns já crescidos,
Mas nenhum de aniversário já anotado no calendário.
Outros que ainda nem vi.
Alguns em fotos de sorrisos banguelas.
Olhos que iluminam um futuro que vou desfrutar.
Alguns por chegar.
Aqui, lá e além mar.
Brotam como se flores fossem.
São um recado de que não preciso me preocupar, a vida segue seu curso.
De onde vim para onde vou.
Olho o rosto da minha mãe pequena, do alto dos seus oitenta anos e olho o rosto da minha caçula, do alto dos seus oito anos.
E minha moça, onze, que transformou minha existência.
Antonella, Valentina, não tenham medo da vida, ela escorre feito o riacho que se desvia dos obstáculos sem perder a graça dos movimentos.
Os bebês estão chegando.
Parabéns pra você.
Fada do Dente.
Papai Noel.
Papai do Céu, olhai por nós!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Desesperança

A saia rodada, o cabelo enrolado.
Dedos esticados e a mão sempre alerta.
Pegava sonhos em qualquer lugar.
E tinha olhos de um castanho raro.
Que olhavam muito mais do que queriam ver.
E tinha a pele aveludada.
Branca no inverno, menos branca no verão.
Mas branca.
Como branco era o sorriso. Fácil.
A saia rodada confundindo o medo.
O cabelo em espera sinuosa.
Sonhava em terceira pessoa, esperava sempre mais.
Os olhos castanhos não perderam o brilho,
Mas perderam o rumo quando o futuro chegou.
A pele aveludada perdeu o viço.
O sorriso não desapareceu, mas ficou menor.
Os sonhos em terceira pessoa ficaram pelo caminho.
O futuro chegou torto, de um jeito diferente.
A saia rodada ficou emoldurada na foto.
O cabelo enrolado em um coque.
Não há mais nenhum sonho em nenhum lugar.
E a vida caminha sem sair de seu trajeto.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Palma da Mão

Sigo as linhas das palmas das minhas mãos.
Não me dizem nada. De onde vem, para onde vão.
Não começam, aparecem.
Não terminam, são interrompidas.
Cruzam-se desordenadamente. Sobrepõem-se inusitadamente.
A cigana espanhola olhou para elas espantada e não quis me dizer nada.
Porque não paguei. Só por isso.
Andavam com rosas nas mãos queimadas de sol e agarrando as nossas com sofreguidão.
Cariño...
Gostava de ouvir. Mas não de acreditar.
Gostava de traçar as rotas eu mesma, como o moderno sistema touch... puxar para cá, ajustar para lá.
São profundas, rascunhadas, com serifas, se é que se pode assim descrever traços incertos.
Vento no deserto que desenha linhas finas na areia.
Que mudam de lugar, que mudam com o vento, que redesenham o caminho.
Um caminho que nunca leva a lugar nenhum.
Procuro um camelo entre as linhas traçadas do meu deserto.
Água fresca. Um lugar de chegada.
O que há no final do arco-íris eu já sei.
Não me interessa. Um tesouro de ouro que não paga nada daquilo que quero.
Quero chegar ao final das mal traçadas linhas da palma da minha mão.
Ora direita, ora esquerda, mas mãos minhas, que seguram minha cabeça com carinho em momentos de aflição.
Sigo as linhas das palmas das minhas mãos.
Quem quiser me seguir, trilhas por descobrir.