sexta-feira, 15 de abril de 2011

No princípio era o verbo

Não conheceu o pai.
Cresceu entre mãe, avó, primas, tias, tios e o avô lá no canto, sempre resmungando.
Enquanto comia, brincava e dormia aninhado com a mãe, não concebeu a ausência do pai.
O primeiro ano na escola causou certa estranheza.
Depois desconforto.
Depois dúvidas. Perguntas. Ausência. Vergonha.
Nas comemorações do dia dos pais, os cartões eram para o avô, mas tão sem sentido, ele apenas olhava, recebia um abraço frio e pronto.
Começaram as perguntas.
Elas sempre ficaram sem respostas.
Foram fases de desengano.
Fases de desespero.
Fases de olhar apenas o presente e o futuro, mas aquela coisa sempre como uma sombra negra.
Um i sem ponto é uma aberração. É? Não tinha mais certeza.
Tentou com a mãe várias abordagens.
Concluiu que era egoísta e não teve forças para arrancar dela a verdade.
Ela se foi.
Construiu sua própria família.
Tudo muito identificado.
Um dia resolveu contar para outras pessoas.
Dividiu uma pergunta com o universo.
Ele ainda não respondeu.
Gente que sabe, gente que não sabe.
Não conheceu o pai.
E então concluiu que também não conheceu a mãe, já que nunca entendeu as razões que esconderam o seu princípio.
Sobrou apenas o verbo.

Um comentário:

  1. Um texto assim, que perturba pela crueza de sua realidade. Pela semelhança de sentimento. No princípio era o verbo. E o verbo não virou carne.

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